domingo, 10 de novembro de 2024

Nicolas, o vencedor!

 

 

A chegada da primavera anunciava

Tua vinda há muito esperada

O choro forte que surpreendeu os céticos

E a batalha pela vida que apenas começava...

 

Um grande rei que resistiu desde o início 

Às dores que o mundo lhe infligiu  

Que para seguir vivo precisaria enfrentar

No fundo sua alma sabia que a vida não seria para sempre um suplício.

 

E um dia após o outro foi mostrando

Que sua bravura ia muito além do que se podia imaginar

Cresce a cada dia mais um pouco

E uma linda criança vem se tornando...

 

Nicolas, aquele que guia seu povo à vitória

Com seu sorriso largo e fácil mostra que vale a pena a luta

Ilumina nossos dias e ressignifica a vida

Das grandes bênçãos dos deuses e santos mostra toda sua glória!

 

Tua vida foi um grande recomeço

Tu trouxe consigo tantos milagres

Que pra mim é impossível mensurar ou enumerar

Depois de ti, eu me tornei outra pessoa, eu confesso.

 

Grande Escorpião-Rei, que tem meu coração

Te ver crescer me faz feliz todos os dias

A vida se tornou tão linda que hoje eu tenho certeza

Que tu és a resposta mais exata da minha mais sincera oração.

 

Que teus dias sejam doces e felizes

Que os dias de luta fiquem no passado

Que a vida te presenteie com muitas razões para sorrir

Porque todos os dias eu agradeço aos deuses  por teres ficado

E prometo fazer de tudo para valer a pena a tua escolha

Mesmo sabendo que nesta vida somos meros aprendizes. 

Depois de ti jamais pensarei novamente em partir. 

Eu sou porque tu és! Obrigada por existir!

 

FELIZ 4 ANOS! TE AMO MAIS QUE TUDO NESTE MUNDO! 

 

 



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 8 de julho de 2022

O cromossomo atípico




 O sinal de síndrome, em Libras, é na mão, um polegar que corre pelos dedos, justamente porque são inúmeras, muitas sequer descobertas pela ciência. Nicolas dorme com carinho na mão, ele gosta de observar as próprias mãos e as mãos das outras pessoas e, quando estou com ele, deixo ele ficar horas observando minhas mãos e meus dedos... É uma das muitas formas que demonstro meu amor por ele...

O diagnóstico de síndrome não é algo fácil de se ter, há de ser feito um estudo genético, que, muitas vezes é caro e inacessível, conseguimos o do Nicolas pela justiça. Mas o diagnóstico é certeiro e inquestionável, caso ele exista. É o cromossomo tal, de tal cadeia e daí a leitura vai sumindo, conforme as lágrimas vem vindo... Não tem como questionar, não tem como negar, mas me digam como aceitar, porque ainda não descobri um jeito. 

Fui mãe atípica. Isso significa que minha primeira filha nasceu com uma deficiência. Corri atrás, lutei muito por ela. Mas ser avó atípica eu não esperava. Tô me permitindo viver o luto, chorar na hora do banho, voltar inteira e sorridente pra ele e pra minha filha. Não consegui e não consigo ser forte. Preciso me permitir fraquejar neste momento. Qualquer diagnóstico que nos informe a diferença não é fácil, ainda mais nos dias de hoje.  

Quando Nicolas estava nos hospitais lutando pela vida, foram tantos os diagnósticos... Ele foi superando um a um. O último havia sido de paralisia cerebral. Já tive alunos com essa patologia, e sei que se forem estimulados podem ter uma vida normal e autonomia. Mas síndrome é decisivo. Um carimbo no passaporte. Não tem volta, não tem nada que possa mudar, não tem cura. O que recebemos foi uma série de características. Muitas delas ele já tem. 

Tenho vivido os dias depois do diagnóstico longe de mim mesma, me assisto trabalhando, passando os dias na normalidade, enquanto essa outra parte, a que está longe, grita, chora, sangra... Se Deus existe, tenho brigado com ele. Muito. Não entendo o que precisamos aprender, que lição ficou para trás em minha caminhada. O que aconteceu conosco pra sermos escolhidos para todo o processo novamente? 

Quando Nicolas estava no hospital, em Passo Fundo, eu anotava tudo, pesquisava, disse uma vez para uma amiga que ele superaria tudo e eu escreveria um livro sobre isso. A síndrome traz o medo: não existe plasticidade cerebral, o que existe é a possibilidade de ele ser mais funcional ou não, pela estimulação que receber agora. É isso. Já existem marcas e possibilidades futuras reais e isso me assusta muito. 

Será ele capaz de ler, ler o mundo, escrever, se vestir e andar sozinho, namorar? Trabalho com pessoas com deficiência há onze anos. Já tive alunos das mais variadas patologias e uma coisa que sempre ficava pensando era isso: algumas patologias já determinam que não poderão viver sua sexualidade, suas relações afetivas serão limitadas à família. Isso me entristece tanto, mas tanto... 

Não tenho intenção ou capacidade de saber o futuro, há muito pouca informação sobre essa síndrome, mas ainda gosto de pensar que um diagnóstico não define um sujeito. Como professora, sempre acreditei e investi nas potencialidades dos meus alunos. Como avó, tenho o dever de acreditar e investir nas potencialidades do Nicolas. E que essa USP9X seja só um nome assustador para aquilo que ainda não tem nome. 

E tu, Nicolas, se um dia puder ler esse texto, eu espero que sim, ou se alguém ler pra ti, saiba que meu amor por ti é imenso, nunca havia sentido nada igual na minha vida. E se por um acaso, tu não puder entender o que está escrito aqui, vou te demonstrar esse amor em cada gesto, em cada sorriso, em cada momento em que eu dividir esse caminho terreno contigo. Obrigada por ter escolhido ficar e, principalmente, por ter nos escolhido para dividir esse caminho. Te amarei até o fim dos meus dias e nas próximas vidas que tivermos. 


quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Tornar-se mãe!


 Um dia, há muito tempo atrás, descobri que nos tornamos "mães" desde o momento em que pegamos um pedaço de papel escrito "positivo" nele. A partir daí, começam mudanças em nossos corpos e nossas vidas que jamais voltam a ser o que foram, nem por um segundo.

Eu já falei em outros textos meus do quanto a Júlia - e depois o Luan - me transformaram, cada um com seu "modus operandi" desde que estavam na minha barriga. Como escreveu Diana Corso, num de seus belíssimos textos sobre sua experiência de maternidade, os dois também são verão e inverno, calmaria e tempestade, sol e lua... Me ensinam muito até hoje e sei que aprenderei com eles até o fim dos meus dias.

Mas estou aqui pra falar da experiência que estou tendo em ver minha filha tornar-se mãe, que vai muito além de me tornar avó (que tenho muito orgulho em ser). Enfim, Júlia teve uma experiência de gravidez diferente das minhas. Saudável, ativa, valente. Nem de perto sofreu as dores físicas que sofri, em ambas gravidez, por razões diferentes... Foi lindo acompanhar a barriga crescendo, as birras dela com fotos, nossas brigas diárias pra que ela diminuísse um pouco o ritmo com o crescer da pança... 

Curtimos todos os momentos junto com minha mãe - a bisa, quem diria - de comprar roupinhas, acessórios, lavar, arrumar... Foi mágico! Tão mágico que em nenhum momento jamais imaginamos estarmos onde estamos agora lutando pela vida.

A cesárea da Júlia foi a sua primeira experiência de dor física severa. Tirando tombos e machucados de infância e idas infindáveis a hospitais para exames, ela nunca havia passado por isso. Eu tive medo porque pensei que ela padeceria... Mas não, pelo contrário, foi corajosa desde o momento que a vi naquela janela da saída da sala de recuperação. Enfrentou a dor com uma bravura imensurável, tanto que 8 horas depois, eu já estava ajudando-a a tomar banho, em pé, sem cadeira nem andador.

Depois do sofrimento físico, das dores inerentes da cirurgia e do pós operatório, veio o sofrimento de ter o filho dela numa UTI, com prognósticos terríveis que me faziam segurar o choro a cada vez que eu os interpretava pra ela. E como chorei escondido dela. No banho, no almoço que eu não ia pra poder chorar, nas pequenas saídas ao banheiro. 

Ir embora pra casa sem o filho nos braços deve ter sido o maior dos sofrimentos pra ela, mas nunca a vi sem a serenidade e a força no olhar. Viemos pra Passo Fundo, 4 horas longe de casa, na mesma ambulância em que veio o Nicolas na encubadora. Eu e ela. Algumas roupas e muitas, muitas dúvidas e medo. Tivemos ajuda de amigos para termos onde ficar, conhecemos pessoas boas que nos ajudaram a estabelecer nossa rotina de visitas e espera, muitaaaa espera... 

Aqui, também iniciamos uma caminhada árdua de prognósticos desanimadores e às vezes desesperadores. Só a vi chorando uma única vez em todo esse tempo. Uma única vez. Ela passa horas prostrada na frente de uma cama de plástico minúscula, sem ouvir os barulhos dos aparelhos ligados ao bebê e, durante muito tempo, sem sequer poder tocá-lo. Mas nunca abriu mão de passar essas horas todas apenas observando seu filho.

Cada dia de pequenas vitórias comemoramos com olhares cúmplices e sorrisos... Hoje saiu 15ml de leite, hoje pude trocar uma fralda, hoje peguei ele no colo, hoje ele ficou no canguru... E assim, a cada dia que vem se passando, em nossas caminhadas matinais rumo ao hospital, em nossas refeições compartilhadas, em nosso cansaço no fim da noite, tenho visto a dor, o sofrimento, mas também a magia e a beleza de minha filha se tornar essa mãe maravilhosa, essa mulher valente, forte e brava que tem se mostrado a cada novo dia...

Todas as dificuldades que compartilhamos, as lágrimas, os sorrisos, hoje ganham um novo significado... Já tinha falado que lar é onde o amor está. Aqui em Passo Fundo não é diferente. Mas vai muito além disso. Lar é onde estamos juntas. Lar é o que temos uma dentro da outra. E isso não vai mudar, onde quer que a gente esteja. O Nicolas sente esse amor. Sente essa mãe. E que mãe! Extraordinária! 

Se tornar mãe dói. Mas ver uma filha se tornar mãe dói mais ainda. Mas que maravilha que é! Que lindo! Que mágico! Que oportunidade maravilhosa de poder estar com ela e cuidar dela neste momento. Obrigada, universo! 



quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Outras moradas...


 Fazem dias que fizemos deste novo lugar nossa morada. Eu não esperava. Ninguém esperava. A gravidez da Ju vinha bem. A Ju sempre foi mais forte que eu. Estava ativa, saudável, estávamos fazendo planos... Chá de fraldas, book que ganhou de uma amiga minha... Enfim...

De repente, um mal estar nos trouxe aqui e aqui estamos sem data para sair. Não tem como eu não me lembrar, automaticamente, das tantas vezes em que estivemos, eu e ela, nos mais diversos hospitais de Porto Alegre, numa peregrinação incansável, exames e mais exames, buscando a causa (ou a cura?) da surdez. Outras tantas em que a asma, a pneumonia, alergias diversas me fizeram questionar inúmeras vezes a existência de uma divindade...

Fizemos, com nossos olhares sempre cúmplices, antes mesmo de nos comunicarmos, de muitos "não lares", nossos lares. Longe de casa, só tínhamos uma à outra. E ali foi se construindo uma relação que vai, até hoje, muito além da maternidade. Uma relação forjada na dor, no sofrimento, mas também num laço fraterno difícil de definir às pessoas que não convivem com uma deficiência.

Foram muitos dias fora de casa, inclusive quando iniciamos o processo de escolarização. A escola especial era em outra cidade e nos obrigava a ir "de mala e cuia" pra passar a tarde lá esperando. Outros mundos que foram se revelando e se fazendo um pouco "nossos". 

Júlia sempre foi uma grande guerreira, desde que veio ao mundo. Lutou pela vida dentro de mim e seguimos lutando juntas quando ela conheceu o mundo. Jamais esquecerei os olhos de jabuticaba me fitando na maca ao lado naquela manhã fria... Apgar 2, passou ao 8. Ela queria viver. E eu a queria tanto! 

Hoje estamos aqui nesse lugar que não sabemos por quanto tempo será nossa morada também lutando pela vida. Mas a minha certeza de que o Nicolas é tão forte quanto nós duas e voltaremos ao nosso lar ainda mais unidos é o que me faz esperançar todos os dias. 

Eu sou a única pessoa que pode fazer outras moradas com ela, e isso às vezes é um privilégio e às vezes é um peso. Sou a única pessoa da família que se comunica plenamente com ela. Antes porque era mãe, a linguagem era umbilical. Hoje porque sou a única que aprendeu a língua dela. Como eu sempre disse, nunca coloquei a responsabilidade em ninguém. Eu assumi e assumo. Mas às vezes é triste. Mais pra ela que pra mim...

Ontem eu a vi frágil. Chorou pedindo pra ir pra casa. Eu fico destruída por dentro. Mas tudo isso é parte do que vamos sendo. As lutas, muitas lutas... As vitórias, as derrotas... Hoje esperançamos, as duas, voltarmos ao nosso castelo. Mas, se não der, não importa, estamos juntas e fazemos ninhos em outros lugares, porque lar é onde o amor está. 


domingo, 1 de novembro de 2020

Um novo tipo de solidão

 


Gosto de fechar os olhos nos dias de vento e deixar o sol brincar de caleidoscópio com o balanço das folhas das árvores. De olhos fechados, "vejo" o jogo de luz e sombras incessante que rapidamente me remetem aos dias de verão da minha infância...

Hoje o vento está frio, mas o vento morno do verão me traz de volta cheiros e sensações (às vezes não tão boas). Acho que amo o verão por isso. Por esses momentos que só dias solares proporcionam...

Eu, apesar de ter muitos primos que também iam na casa da minha avó, sempre fui muito sozinha (não sou daqui, lembram?) e, na vida adulta às vezes esse sentimento de solidão fica diferente.

Recentemente abri mão de relações sem afeto e sem futuro. Sei que foi uma escolha correta e não questiono isso. Mas a falta da presença virtual dessas pessoas às vezes ainda dói. É um novo tipo de solidão. 

O advento das redes sociais se fortaleceu diante da pandemia e, muitas vezes, nos proporciona estarmos próximos de quem está distante. Mas, para uma pessoa ansiosa como eu, é uma eterna espera. Uma expectativa doida de que alguém tenha interagido. Aí o lance de não desligar nunca, estar sempre cuidando pra ver se tem alguma mensagem e a tristeza de saber que nenhuma mensagem será de nenhuma dessas pessoas...

A gente demora a acostumar com as ausências. Demora mais ainda quando a impossibilidade é dada pela vida. Não foi escolha nossa, mas teve que ser. Melhor doer agora do que deixar destruir tudo pra ter que reconstruir depois.

Então, quando fecho os olhos numa tarde de domingo, curtindo o farfalhar das folhas nas sombras dos meus olhos fechados, é paz ou solidão? Um pouco dos dois, eu diria... E tá tudo bem! Não vai doer pra sempre. Nunca dói pra sempre! 


quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Meu lugar não é aqui

 


Tenho pensado muito sobre o tempo... Escrevi sobre ele outro dia e o quanto tem me atravessado nestes dias em que tudo parece parado, em que os dias parecem todos iguais... 

Outro dia li um texto que dizia que o tempo não passa, afinal, ele é eterno. Nós é que passamos por ele. Faz sentido. O tempo sempre esteve e sempre estará aqui. Nós não. Um dia voltaremos pra casa, como costumo dizer...

Biologicamente, nossas células já iniciam o processo de envelhecimento desde o momento em que nascemos. É a boa e velha pergunta: "cada dia que passa, desde então, é um dia a mais ou um dia a menos?"

Eu, autêntica aquariana, desde criança, rebelde, do contra, com certa inteligência acima da média, comecei a perceber que, não importava o que eu fizesse, eu simplesmente não me encaixava... Eu era literalmente "o pino redondo nos buracos quadrados"... 

Lugar nenhum no mundo me acolhia... Nem minha casa, nem a escola, nem a casa da minha vó, embora lá os verões tenham sido mágicos na minha infância... 

Essa sensação perdurou durante toda a adolescência e, com ela, uma vontade doida de voltar pra casa. Na vida adulta, às vezes sinto que se agravou esse sentimento.

Acabei comprando muitas brigas pra tornar esse mundo mais "habitável", não só pra mim. Levantei bandeiras da inclusão, da justiça social, da proteção animal. Encontrei nessas lutas uma razão para, pelo menos tentar, tornar o mundo o lugar acolhedor que sempre buscara...

Mas a questão é que não sou mesmo daqui. Isso às vezes me alivia e outras vezes me assusta. Alivia porque vejo que não estou caminhando junto a essa parcela da sociedade doente e que adoece os outros. Assusta porque, se não é aqui minha casa, e de tantas pessoas que andam comigo na contramão do mundo, pra onde iremos? Onde estaremos a salvo? 

A consciência de que nada é, tudo está, porque o tempo não nos atravessa, nós é que o atravessamos faz com que às vezes eu me sinta tão só... A consciência da finitude de todas as coisas ou, como diria o Dom Juan, de Castaneda, o que diferencia o guerreiro de um homem comum é a consciência de sua morte. 

Vivemos tempos estranhos. Não, não sou daqui. Muita gente não é. E muita gente tem voltado pra casa nesses dias tristes. Eu, hoje, quero ficar mais um pouco nesse lugar estranho porque o que se aponta, logo ali, na frente, é um futuro cheio de vida, cor, ancestralidade. Quero viver pra ver isso. Sentir. Sorrir e chorar. Depois, estarei pronta pra voltar pra casa. 

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Clonazepan 2mg


Estou em terapia já faz mais de ano. Aliás, voltei a ela, depois de anos me virando como dava... Um remédio aqui, um fitoterápico ali, chá, ritual, simpatia e, de repente, percebi que não ia conseguir sozinha - de novo. 

Mas comecei a terapia talvez meio tarde e as crises já estavam intensas demais e a dor, a velha e conhecida dor, não esperou a cura, teve urgência em ir embora... 

Daí foi um pulo pra mais uma tentativa de "voltar pra casa"... É incrível que toda vez que tentei o suicídio, me lembrei das dores antigas, além das novas... 

A Carina criança, abusada, esperando pelo pai na grande janela, as perninhas balançando pra fora, o tempo, o pai que não vinha, a desilusão... A Carina adolescente, que ñ tinha lugar no mundo pra ela. Melhor aluna. Pior pessoa. Habilidades na escrita, no desenho, na solidão... 

Aí, nesses momentos, sempre almejava o glamour dos pulsos cortados, o sangue, a dor punjente em quem outrora me machucou. Mas tudo que tive foi o veneno, o remédio, o vômito e a volta vergonhosa a esse mundo que não queria mais ficar. 

Eu queria não ter de assumir fracassos. Tão inteligente, desde pequena, tão talentosa, mas incapaz de construir algo que fosse concreto: seja relacionamento ou patrimônio... Ir embora é muito mais difícil que ficar. Mesmo que ficar signifique olhar no espelho todos os dias e sentir-se insignificante. 

E tentei de tudo pra me sentir mais gente: emagrecer, academia, dietas e chás milagrosos, pensamento positivo, como todo mundo fala, ocupar minha vida com horas intermináveis de trabalho. Nada, absolutamente nada preencheu o vazio. 

Tenho amigos, filhos, uma parte da minha família que me é essencial e importante, então o que acontece? Nunca soube explicar. Desde os 16 anos fazendo terapia, tomando remédios, tentando me enquadrar num mundo que cada vez mais se distancia daquilo que acredito... 

E, acreditem, o faço por vocês. Para não ter que ver olhares decepcionados me perguntando: "nosso amor por ti não basta?" Mas não é sobre amor. É sobre dor. E às vezes é tanta dor... É a falta de grana, é o trabalho triplicado pra não ter adquirido quase nada, é a crise com o filho, são as contas não pagas, é o não saber o que vamos comer amanhã (sim, às vezes acontece!) É tanta coisa que dói. 

E, hoje, com a incerteza provocada pela pandemia, agrava. Meses sem ver ou abraçar amigos, sem sair pra lazer, somente pra trabalho. O medo de trazer a doença pra minha filha que espera meu neto... Sem poder sequer imaginar o futuro. Ou se estaremos ali, logo adiante... 

Preciso ocupar minha mente, mas não estou dando conta nem do que tenho para fazer e isso agrava a ansiedade, que agrava a depressão e, enfim, já nem sei mais o que é melhor. Ou menos pior. Vou levando... Desistindo de alguns projetos aqui. Planejando outros ali... Que nem sei se vou por em prática... Mas, né, a gente vai tentando. 

Vou agradecendo a quem se preocupa, a quem me estende a mão, minha mãe, meu irmão, minha filha, alguns amigos que conseguem - ainda - ler meus sinais e me segurar pra que não me perca de mim mesma. 

Eu tô tentando, juro que tô. Mais por vocês que por mim. Mas de noite, no travesseiro, ou no banho, a batalha é só minha. E tenho sido forte! Vocês se orgulhariam! Mas agora, que o Rivotril bateu bonito, vou dormir, porque, acreditem, é o único momento em que minha mente tão barulhenta encontra paz. Já chorei o bastante por hoje. Amanhã tem mais. E vamos indo, um dia depois do outro. 

Desculpem os lamentos, sei que quem tem coração também tá fodido da cabeça. Não estamos sozinhos, teoricamente. Praticamente, estamos. Fodidos e sozinhos. E o clonazepan é um baita companheiro! Acreditem! Cada um com sua droga... 


sexta-feira, 2 de outubro de 2020

O tempo

 O tempo tem me atravessado, vem em ondas e beija meus pés, me transforma a cada novo dia. Hoje não sou a mesma de ontem e amanhã certamente não serei a mesma de hoje. Essa transformação se reflete no espelho, no rosto que perde, aos poucos, o brilho da juventude, e vai ganhando sabedoria, a cada sinal, a cada fio de prata que surge em meus cabelos...

O tempo, às vezes manso como a brisa, às vezes tempestuoso, confuso, vem em ondas e lambe meus pés, tal e qual a água do mar, me fazendo sentir na pele - hj não mais tão viçosa como outrora - o frio do inverno ou aquele frescor necessário nas tardes quentes de verão... O tempo me invade... Me concede... Me priva... 

O tempo, companheiro fiel desde que nasci, caminha ao meu lado junto com a Morte. O tempo e a Morte são amigos de longa data. Um não vive sem o outro. E, caminhando, os três, ombro a ombro, vamos construindo e desconstruindo coisas na nossa passada: pontes, muros, paredes, corações... 

O tempo, belo e fugaz, me deixa revisitar momentos remotos, nas lembranças tenras, presas em meus cabelos como laços coloridos de fita... Tem dias que volto às tardes preguiçosas de verão na casa da minha avó... As caçadas aos tatus-bola, as roupas esvoaçantes no varal erguido alto por uma taquara, as plantas trepadeiras floridas multicor. Sinto cheiros, sinto o calor do sol em meu rosto e quase, muito quase, posso abraçar novamente o corpo frágil da minha avozinha. "Só visita" - diz o sábio tempo, lembrando que ele jamais volta...

O tempo, nesses dias pandêmicos, tornou-se preguiçoso e lento. Passa a cada dia como se fossem muitos dias em um... Potencializou faltas e saudades, enquanto que em outros lugares não tão distantes encerrou sonhos e promessas. A amiga Morte tem andado ocupada... Enquanto o tempo nos faz perceber de forma dura que não somos nada além de pó de estrelas. É pra lá que voltaremos. "Por favor, não agora!" - peço eu ao tempo e à Morte. O tempo ri. A Morte observa, calada.

O tempo tem brincado comigo e com as pessoas. Nós, que sempre corremos contra o tempo no nosso dia a dia, apressados para chegar na hora, cumprir prazos, vencer metas, de repente estamos presos em dias iguais. Rotinas de cuidados e abstenções em prol de cuidar do outro. Hoje não nos vemos para que possamos estar juntos novamente amanhã. "Quem disse que estaremos?" - ri, de novo, o tempo. Não sei, mas eu gostaria de estar...

O tempo é irônico. Nos leva a lugares incomuns, nos faz perder pessoas pelos caminhos, encontrar outras e, nessas ondas que chegam e vão o tempo todo, ele corre. Nunca pára. Mesmo naqueles momentos em que gostaríamos de morar. Não! Esses momentos são os mais fugazes, são os que passam mais rápido... O tempo precisa andar, sempre. Mesmo que ande de um jeito torto e estranho, como agora, na pandemia... 

Foi o inverno mais longo da minha vida, mesmo eu podendo vivê-lo como sempre sonhei: quentinha, embaixo das cobertas, em hibernação constante. Ainda assim, as ondas do tempo bateram em mim tempestuosas, fortes, me derrubaram algumas vezes. Suas águas gélidas me fizeram tremer de frio. E eu odeio frio. Ainda assim, olhei pra Morte e clamei, com carinho: "Não, agora não!" 

O tempo tem invadido tudo. O contar de minutos das aulas, das lives... A hora do médico, as horas de comer e dormir, hoje tão avessas ao usual. Não temos mais as horas, dias, semanas como conhecemos... É tudo um emaranhado... Emaranhado de sentires e de saudades. Emaranhado de sonhos... Saudades do "normal"... Mas, e o que é o normal? Pergunto-me o tempo todo. Eu, que vivia na rua trabalhando, que quando reparei, vi meus filhos crescidos, hoje, com todo tempo do mundo, vivo presa em trabalhos virtuais, grupos de Whatsapp e tenho um medo enorme de me perder e não ver meu neto crescer...

O novo normal é o tempo brincando com a gente, mostrando que não adianta ter pressa e que cada coisa tem seu próprio tempo: tempo de chegar, tempo de florescer, tempo de ir... Nossa urgência nada significa hoje. Estamos presos, sem poder abraçar nossos amigos e abraçando nossos familiares com medo... A vacina? No tempo certo. Enquanto isso, vamos vivendo... Entendendo a grande fucking dádiva que é estar vivo. Sonhando em poder sair pra dançar e tomar banho de cachoeira de novo. Aprendendo a valorizar cada momento... Até porque nunca saberemos quando será o último. Ou quanto tempo demoraremos para viver aquilo outra vez. Obrigada, tempo, eu finalmente entendi! 

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Onde são os lugares dos "não lugares" que a escola produz?


Começo este texto com dor no coração. Trabalho há oito anos com inclusão de pessoas com deficiência no âmbito escolar e, justamente por isso, não é fácil relatar o que tenho para relatar sobre este delicado tema. A questão é que a inclusão ainda não se estabeleceu e não se sabe se um dia realmente se estabelecerá. Desde a Constituição Federal de 1988, que determina  “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” (art.3º inciso IV). Define, ainda, no artigo 205, a educação como um direito de todos, garantindo o pleno desenvolvimento da pessoa, o exercício da cidadania e a qualificação para o trabalho. No artigo 206, inciso I, estabelece a “igualdade de condições de acesso e permanência na escola” como um dos princípios para o ensino e garante, como dever do Estado, a oferta do atendimento educacional especializado, preferencialmente na rede regular de ensino (art. 208), ainda não temos os direitos das pessoas com deficiência garantidos. Desde lá, vieram mais inúmeras leis, decretos, notas técnicas que sempre tiveram como principal objetivo amparar e garantir acessibilidade plena a essas pessoas, a exemplo temos a Declaração Mundial de Educação para todos, de 1990, a Declaração de Salamanca e a Política Nacional da Educação Especial, ambas de 1994, dentre tantas outras que foram complementando-se entre si.
É importante falar da legislação, justamente para mostrar que não falamos de algo novo, estamos em eterno processo de construção, desde então, sem, de fato, conseguirmos dar algum passo adiante. Lembro-me bem que nas aulas da faculdade: a professora Maura Corcini Lopes dizia que "a inclusão não é lugar de chegada", no sentido de que o processo de transformações e mudanças provocados pelos alunos com deficiência nas escolas é muito mais importante do que o resultado final. Aliás, qual seria o resultado final? Que lugares são estes que tanto almejamos chegar e que, apesar de tanto caminharmos, nunca chegamos? A inclusão não é o lugar, mas a escola o é. Lugar de tantos universos que dividem espaços, sentires e aprendizagens. A escola, o "lugar de todos", tem sido de todos mesmo? 
A provocação que tem por objetivo este artigo é justamente essa: o que estamos fazendo para que a escola se torne, minimamente, o espaço democrático e acolhedor que queremos? Nossas atitudes, frente ao novo, frente ao que desacomoda, ao que nos tira de nosso lugar de conforto, é positiva, é pró ativa, nos faz pessoas melhores? Tenho visto e ouvido tantas coisas nas escolas em que tenho passado, seja para trabalhar, seja para palestrar, que me mostram que os responsáveis por promover a acessibilidade plena e permanência dos alunos, considerados "diferentes" na escola, são as mesmas pessoas que vão contribuindo para a construção de lacunas, lugares vazios, onde dificilmente estes alunos se encontram ou encontram meios de preencher esses espaços. 
O lugar de onde falo diz muito. Sou professora, formada em pedagogia, com habilitação em educação especial, fiz especialização em AEE e uma pós graduação não concluída em neuropsicopedagogia (faltou a última disciplina, abandonei o curso por decepção mesmo, ao perceber que eu sabia mais do que muitos dos professores que estavam ali me ensinando e que todo o material didático, ou pelo menos parte dele, eram retirados da Wikipedia). Mas, ainda mais importante que minha caminhada acadêmica, é minha caminhada como educadora de uma criança surda. Minha filha, Júlia, hoje tem 21, quase 22 anos, inicia sua caminhada acadêmica agora e, com ela e por ela, que minhas maiores aprendizagens foram realizadas. Essa caminhada me (re)significou e (re)significa muito mais do que qualquer teoria que tenha passado por mim. Porque essa caminhada faz de mim humana, antes de ser profissional ou qualquer outra coisa. E, como dizia Carl Jung, "conheça todas a teorias, todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana seja, antes de mais nada, outra alma humana".
Agora é possível fazer um apanhado de tudo o que estou tentando dizer. Até hoje, tamanhos enfrentamentos e embates que tenho nas formações que dou para professores, sempre tive que me apresentar como mãe de pessoa com deficiência antes de falar do meu currículo lattes. As resistências frente ao novo, frente ao desconhecido, às vezes são cruéis, sistemáticas, estão impregnadas em um sistema que já não investe o suficiente em educação, que dirá nos educadores. As escolas permanecem num eterno "despreparo", porque, muitas vezes, é mais fácil justificar o erro do que deixar de cometê-lo. 
E a inclusão, a legislação, como bem tenho bradado por onde vou, não irá retroceder. E eles estão chegando em nossos espaços, pessoas com deficiências sensoriais, pessoas autistas, com altas habilidades (que por mais incrível que possa parecer, estas últimas também não são bem vistas dentro das instituições de ensino). Continuarão chegando, mesmo que nunca estejamos preparados para recebê-los. Essa é a nossa realidade atual. Não vai mudar. Então, pergunto novamente, quanto mais resistiremos? Eu complementaria a frase dita pela cantora Pitty, que brilhantemente disse, em um programa de tv: "Pois eu não volto pra cozinha, nem o negro pra senzala e nem o gay pro armário, o choro é livre e nós também." As pessoas com deficiência também não retornarão às clínicas. 
Hoje, com um governo de retrocessos no Brasil, vemos, desde o início deste mandato, ou antes mesmo do início dele, a volta do eugenismo, onde há uma falsa crença de que as minorias devem curvar-se às maiorias, ou sumirem (dito pelo próprio presidente, então candidato, em 2018), que certamente deu respaldo para o começo de uma retirada de direitos sem precedentes, depois de tantas movimentações e conquistas das pessoas com deficiência e comunidades envolvidas. Há um silenciamento da luta, sendo que ainda há tanto para ser conquistado. 
Então, se eles chegam a nós todos os anos e sabemos que, mesmo com retirada ou não de direitos, o lugar destas pessoas por certo é onde elas quiserem, porque insistimos em dizer que a escola não é o lugar delas? Como podemos lutar por democracia e justiça quando impedimos pessoas de estarem de forma plena em determinados lugares e de exercerem seus direitos? Negamos a elas o acesso ao conhecimento alegando que não há preparo, que não há estrutura e eu fico aqui me perguntando até quando essas coisas irão nos paralisar e fazer com que a gente siga esperando que a solução (?) venha do governo, do outro?
Enquanto isso, nossos alunos com deficiência estão lá, sentados em suas cadeiras, invisíveis. E nós, com nossa não ação, vamos construindo os não lugares, as impossibilidades e as incertezas. Mesmo sem querer, vamos dizendo ao outro que é improvável, impossível, que ele - o outro - é incapaz. E nessas cadeiras vazias aos nossos olhares estão sujeitos que vão se vendo desta forma, anulados em suas potencialidades, incertos de suas identidades. Estamos cometendo um crime! E, mesmo construindo os não lugares, somos incapazes de dizer, então, quais são os lugares destas pessoas, afinal? E, não, elas não voltarão para as clínicas!

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Vida que segue

De ti, restou a garrafa com um resto de vinho na geladeira e o pote em cima da mesa. Não vou poder devolver, porque não sei o que houve contigo, se te aconteceu algo sério ou tu sumiu por escolha, como da última vez. Nunca vou saber, porque é isso que acontece quando se vive na clandestinidade e ninguém sabe que a gente existe na vida da pessoa. 

Nos primeiros dias, não dormi direito, imaginando toda sorte de coisas que poderiam ter acontecido contigo. Pensei em ligar, só pra ver se com teu alô tu confirmavas que estavas vivo, pedi pra minha mãe te mandar mensagem pra verificar se a ela tu respondias, mas a cada silêncio, aumentava a angústia e a incerteza, me fazendo mal até fisicamente.

O não saber do outro é muito pior que levar um pé na bunda. Muito pior. Porque quando levamos um fora, sabemos que a vida da outra pessoa continuará, mesmo que não estejamos mais nela. Sofremos, mas a vida segue. Já quando as pessoas somem, não sabemos se ainda estão vivas, andando por aí, seguindo sem a gente. E a gente trava, não consegue seguir em frente, porque simplesmente cada lembrança de cada momento é como se fosse uma lança cravada no peito.

Ontem foi pior que antes de ontem. Hoje está pior que ontem. E tenho medo que a cada dia sem saber de ti, eu cada vez mais piore e meu coração morra junto com as parcas fotos e à medida que as lembranças forem se distanciando no tempo. E que, com o passar do tempo, já tendo a certeza de que tu não habitas mais este plano, só tenha um buraco onde meu coração batia... E tu não vai ser a estrela mais brilhante do céu e nem terei ilusões de que estará olhando por mim. Sempre fui secundária e coadjuvante. Sempre o serei.

Ontem minha mãe disse uma frase que ficou ecoando em meus pensamentos: "se já sumiu alguma vez, certamente sumirá de novo." Sim, tu já sumiu. Disse que foi pra me proteger, mas na realidade foi por covardia. Tive a oportunidade de te dizer isso olhando no olho. Da outra vez, esbravejei, te xinguei por email, prometi pra mim mesma que, depois de tanto sofrimento, jamais voltaria a falar contigo. 

Mas não, não foi o que aconteceu. Ao teu primeiro sinal de vida, fiquei tão feliz em saber que tu tava vivo que não pestanejei. E tudo cresceu tanto e tão vertiginosamente entre nós, que pra mim, a cada momento em que penso, não sei se prefiro acreditar que tu foi embora outra vez ou se tu morreu. A dor que estou sentindo é a mesma. Sinto tanto, me entrego tanto e ao mesmo tempo não me sinto capaz de fazer quem quer que seja e é justamente por isso que tenho certeza de que, onde quer que tu estejas, estás melhor sem mim. E eu, eu vou ter que levantar - mais uma vez - e (re)aprender a viver. A vida tem que seguir. Vou juntar meus cacos e ir em frente. A vida segue. Sempre segue...

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Um outro tipo de solidão


Eram pouco mais de quatro caixas ao lado da porta que aguardavam tua ida definitiva nem sei pra onde... Tudo foi muito intenso e tudo foi uma mentira, quando terminou, pouco mais de três meses depois de ter começado, eu não sabia quem tu era. Nem onde morava. Nem quem eram teus familiares e amigos...
Eu, transparente e intensa demais, não abri apenas as portas da minha casa - ou as pernas - pra ti. Abri o livro da minha vida, com todas as suas passagens sujas, sangrentas e cômicas... Quando me dei conta disso, foi desesperador. Tu não levou embora só a minha tevê, ou minha dignidade, tu levou embora minha capacidade de confiar de novo em qualquer ser humano hétero do sexo masculino.
Já havia, há muito tempo, me decepcionado de inúmeras formas com meu pai, que durante muito tempo fora minha referência de salvação de um mundo que não era nada legal comigo... Há pouco tempo, veio a decepção com meu filho, que criei com tanto amor e com tantos valores que não só acredito, como pratico... E foram tantos abusos e tantos relacionamentos fracassados e traições... Durante muito tempo pensei que o problema era eu. Ou minhas escolhas. Ou talvez de fato o sejam, mas hoje tem dias em que não sinto tanta culpa de ser quem eu sou.
O fato é que, eu, que achava que não tinha nada, em função de morar agora de aluguel e me sentir tão bosta por não ter um teto sob minha cabeça para chamar de meu, me dei conta, olhando aquelas poucas caixas que te aguardavam na porta de baixo do prédio, de que tenho muito mais do que tu e que, para ter todas essas coisas, nunca precisei roubar ou pisar ou enganar ninguém. Não me escondo nas sombras e todo mundo que me conhece sabe exatamente quem eu sou e as coisas que defendo. Nunca precisei dizer que amava sem sentir, de fato, o amor invadindo todos os poros do meu corpo. E já amei e me enganei tantas e tantas vezes, mas fui honesta aos meus sentimentos e aos do outro. Não sei como é mentir que ama. Não sei fingir ser o que não sou. E ser transparente assim já me fez sofrer inúmeras, incontáveis vezes, mas não trocaria essas lágrimas que derramei por ser um monstro como tu és. 
Quatro caixas são tuas posses, tu levou de Uber, não sei para onde, a outra tv que tu trouxe é uma merda, mas nada neste mundo substitui a tranquilidade de deitar a cabeça no travesseiro à noite e andar de cabeça erguida na rua.  Então, apesar de toda a tristeza que esse fim me causou, de estar experimentando um tipo de solidão que ainda não conheço, hoje tenho clareza que não são apenas posses materiais que tenho mais do que tu. Tenho caráter até para assumir minhas próprias falhas, que sei que são muitas. Minha dignidade eu trouxe de volta quando fui preenchendo os espaços vazios que tu deixou com as minhas coisas. A casa, apesar de alugada, voltou a ser só minha e da minha filha e aos poucos vou mostrando a ela que nós duas nos bastamos. 
E talvez, porque não sei ainda ao certo, mas talvez, essa solidão que experimento hoje e que tem me machucado tanto, seja justamente porque, depois de ti, vou demorar muito tempo para voltar a acreditar que possa viver outra história - não de amor, que já faz algum tempo que não acredito - mas de parceria e companheirismo. Talvez acostume com essa solidão e nunca mais acredite e, como me disse um ex namorado (que amei muito), eu morra sozinha com 27 gatos. 27 é um número bem simbólico. Já tenho 9. Sete meus e dois na rua, que cuido e dou comida. Então, faltam ainda 16 gatos pra completar a profecia e uma casa para alugar que aceite todos esses bichos... Tomara que pelo menos seja na praia ou em alguma cidadezinha de interior onde eu possa tomar banho e energizar meus cristais numa cachoeira vez ou outra.
Cada um com sua riqueza, né? A ti, desejo nada menos que a lei do retorno. E sei que a solidão é o de menos perto de tudo que tu vai ter para pagar num futuro não muito distante. Como era mesmo o ditado? Antes só... 


quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Coisas que aprendi...


Como em todo final de ano, faço uma longa reflexão acerca do ano que finda... Não acredito que a passagem de um dia para o outro, um ano para o outro possam trazer grandes mudanças, por isso, costumo dizer que, além da desculpa de estarmos junto daqueles que amamos nestas datas festivas, não há nada demais, são dias como quaisquer outros. Mas, apesar disso, não deixa de ser uma etapa que tem seu fim... Gosto de pensar sobre os acontecimentos que me marcaram e/ou ressignificaram ao longo de determinado período... às vezes escrevo sobre, outras não há muito o que escrever, o que compartilhar...
Beirando os 40 anos, estou mais sensível diante de algumas coisas e completamente insensível diante de outras... É isso mesmo, dicotômico e fascinante... Outro dia disse que minha conta bancária me faz mais triste do que as pessoas que vou perdendo ou que se perdem de mim no caminho, e é isso mesmo. Sou uma pessoa que há muito tempo tem trabalhado demais... E, muitas vezes, não conseguir ver o resultado deste trabalho me é frustrante e desesperador. Muitas vezes me peguei pensando se a vida se resume a trabalhar e pagar boletos (já que emagrecer eu desisti já faz tempo...)
A verdade é que minha alma clama por uma liberdade que já faz muito tempo que não sinto... O trabalho, as obrigações, os horários (esses últimos confesso que até hoje ainda não consigo lidar) me tolhem e muitas vezes apagam o que há de melhor em mim... Mas, segue o barco... Tem de seguir... 
O ano de 2016 foi um pesadelo. Remei, remei, paguei meu apartamento aos trancos e barrancos e contei com a ajuda de muita gente amiga para manter pelo menos isso. Comi muito pão com margarina, muito mesmo! Não tenho vergonha de dizer. Passei necessidades inenarráveis, mesmo trabalhando 60 horas semanais, às vezes até mais. Mas, tive algumas presenças importantes de volta a minha vida, enquanto outras partiram, pra nunca mais voltar, por escolha minha. Enfim, poderia dizer, fazendo um balanço, que 2016 foi de muito mais baixos que altos, por assim dizer. Remei e morri na praia.
Por conta disso, apostei todas as minhas fichas no ano de 2017. Todas mesmo. Ano ímpar, virada de ano de vestido branquinho, calcinha amarela, como manda o figurino... Aquela virada de ano que era pra ser acampando, na cachoeira, acabou numa reuniãozinha discreta entre poucos amigos, mas que eram significativos. Iniciei o ano trabalhando, sem férias, curtindo a carga horária reduzida de três turnos para um, com muitos momentos de piscina, família reunida e vendo o milagre da vida acontecer no meu sobrinho, que cresce e que posso presenciar, admirar e curtir esse crescimento, com muito amor. 
Desisti, depois de muito sofrimento e luto, de remar pelo meu apartamento. Essa desistência me trouxe, de certa forma, leveza para minha existência e comida para a minha mesa. 2017 foi um ano com menos pão com margarina e mais pizza. Apesar da tristeza e das muitas noites em claro que essa decisão me trouxe, das incertezas, das angústias, acabei vendo que havia optado pelo melhor... Não passar fome foi uma grande conquista de 2017! 
Depois, adoeci, tive problema sério de coluna (que ainda está aqui, que ainda dói vez ou outra, mas me fez entender os limites do meu corpo...), participei fortemente e ativamente do movimento de greve da minha categoria, pois não tinha como me calar diante da injustiça cometida por este governo. Fiz novas amizades, sorri, chorei, muitas e muitas vezes duvidei de mim... Mas aqui vão alguns dos aprendizados que tive no ano de 2017:

1) Não importa o que você diga ou faça, sempre haverão pessoas que não gostarão de você e te julgarão mesmo sem te conhecer;
2) Você pode ser bom e dócil durante 99% do tempo, mas, é justamente aquele 1% de descontrole e ódio que falará mais de você aos outros, principalmente para aqueles que não conhecem a sua essência;
3) As pessoas não te amarão da mesma forma que você as ama, conforme-se e aceite;
4) Se não está feliz e satisfeito em algum lugar, movimente-se para sair dele, pessoas e lugares também tem o poder de nos adoecer, então, depende de nós não permitir que isso aconteça;
5) As pessoas, mesmo sendo de nossa família, também podem nos fazer mal. Cuidado com relações abusivas! Pode ser filho, pai, mãe, irmão, irmã, lembre-se sempre de impor os limites necessários para que o outro não possa te fazer mal. E não se sinta mal se tiver que evitar contato. Nunca anule-se em nome do outro;
6) Relação afetiva é aquela que cuida de você e te aceita exatamente do jeito que você é. Desconfie de pessoas que só te procuram quando se esgotaram as outras opções. Você não merece ser segunda, terceira, quarta opção de ninguém! Caso não te coloque em primeiro lugar, saia fora e não olhe para trás! 
7) Ainda falando de relacionamento afetivo, lembre-se de que todo relacionamento é via de mão dupla. Se você sentir que está dando mais do que está recebendo, sinal vermelho! Não se sobrecarregue em nome de ter alguém do seu lado. E também observe os pequenos gestos que muitas vezes significam tanto. O cara que limpa teu óculos sem você pedir é alguém que realmente se importa contigo! Pensa nisso!
8) Respeite teus momentos. Eu costumo dizer que sou feita de fases, acho que todo munto é, mas nem todo mundo entende isso... Não adianta você se dispor a engatar um relacionamento se estiver numa fase de "fubangagem". Assim como não adianta sair dando para todo mundo se teu corpo está pedindo sossego. Nesse viés o autoconhecimento é muito importante, pois não precisamos saber o que queremos quando sabemos o que não queremos;
9) Cuidado com as amizades. Nem sempre é recíproco. Assim mesmo como consta no item 3 deste texto. Por isso, não demonstre suas fraquezas para qualquer pessoa e tampouco conte segredos, não dê ao outro o poder de te destruir caso alguma coisa dê errado; 
10) Ainda falando de amizade, mas agora com relação às mulheres especificamente... Sororidade é algo que nem sempre é compreendido e/ou aceito. Muitas vezes as pessoas pregam sem saber o que realmente significa e muitas, muitas vezes, o senso de competitividade fala mais alto. Nem todo mundo fica feliz com o teu sucesso, nem todo mundo está do teu lado por gostar de ti e nem todo mundo mostra sua verdadeira face;
11) Mantra que carrego para a vida: "mantenha teus pés no chão quando tua cabeça estiver nas nuvens!" Não importa o tamanho da tua conquista, não importa o quanto você cresceu frente às adversidades, não importa se conseguiu realizar um grande sonho ou se ganhou na mega... Mantenha a humildade sempre! Jamais humilhe outra pessoa que não está no mesmo patamar que você, mesmo que você tenha conquistado com muito suor e lágrima. Lembre-se que quanto mais alto você subir, maior será sua queda.
12) Não menos importante que a anterior, ser humilde não significa deixar que os outros pisem em você. Jamais! Só você sabe das tuas batalhas e só você sabe das tuas dores. Não abaixe a cabeça para aqueles que querem o teu mal. Dignidade e respeito por si próprio são tão importantes quanto a humildade;
13) Opinião é diferente de discurso de ódio. Entenda que gostar de azul ou de vermelho nunca será como dizer que uma mulher merece ser estuprada ou manter um discurso fascista acerca da realidade que vivemos. Segregacionismo, racismo, misoginia, homofobia, xenofobia e outros não são opinião. Dispense pessoas que tem esse discurso, elas jamais agregarão nada à sua vida;
14) Feminismo é luta por igualdade de direitos. Primeiro porque é fato que ainda não gozamos dos mesmos direitos dos homens e segundo porque o machismo ainda mata - e muito!
15) Conhecimento é muito importante para se ter liberdade, dignidade e, principalmente, discernimento. Leia, leia muito, pesquise, escreva, produza. Não atenha-se apenas ao óbvio. Vá além! Não se baseie no senso comum propagado nas redes sociais. Leia! Coloque um objetivo de tantos livros por ano. Muito mais importante do que fixar um objetivo de perder tantos quilos... Lembre-se sempre: beleza vai embora, inteligência e abstrações serão teus para sempre!
16) Faça o bem, engaje-se em alguma causa, devolva ao universo somente o que deseja receber... Seja a causa animal, seja moradores de rua, crianças abrigadas ou asilos... Tem uma frase de um desenho que eu gosto muito: "Viu a necessidade, atenda!" (Robots, 2005, Twentieth Century Fox Animation). Lembre-se de que, mesmo podendo fazer pouco, ainda assim é muito nesse mundo individualista. Enfim, seja uma pessoa boa! 

Em suma, mantenha sua essência! Não importa se isso te custará empregos, relacionamentos, status, amizades e pessoas da família. Na hora da dor, na hora do choro, é você com você mesma. Assim será na hora da tua morte. Nascemos sós e morreremos sós, essa é uma das grandes verdades ditas pelo grande Bukowski. Não importa quantas e quantas vezes você terá de quebrar e catar teus cacos, um a um, não importa quantas vezes irá receber o não como resposta, não importa quantas vezes você mudará ao longo do processo. Vai doer? Vai! Mas jamais perca a oportunidade de ser você mesma, de acreditar em você e no teu potencial e, principalmente, de amar-se acima de qualquer coisa.

(Foto meramente ilustrativa do amor que tenho por mim, mesmo sendo uma fodida e, considerada por muitos, inclusive pessoas da família, como fdp e fracassada!)




quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Carta aberta para meu pai...


Pai...

Estou há muitos dias pensando no que escrever de ti, para ti... Como é difícil descrever certas relações, como é difícil tentar escrever sem abrir velhas cicatrizes, sem fazer sangrar antigas feridas...
Não tenho intenção de enfeitar ou tentar pintar de cor de rosa uma relação que foi, sim, conflituosa, mas que, justamente por isso, nos fez crescer tanto enquanto pessoas.
Lembro do nosso começo... que, obviamente, para mim não foi no momento em que abri os olhos para esse mundo, foi um pouco depois. Lembro do quanto te esperava sentada naquela janela, do quanto ansiei a tua vinda, do quanto fui triste com a tua falta, a tua ausência, e feliz com a tua chegada. Muitas e muitas vezes a espera foi em vão e, não importava quanto tempo eu esperasse por ti, bastava tu aparecer para que eu esquecesse as minhas lágrimas, a espera, a demora, a mágoa... Bastava tu aparecer para o meu coração se encher de uma alegria única.
Tu sempre foi a festa, a casa cheia, a risada gostosa. Deve ser justamente por isso que sempre tive tanto medo de te decepcionar. Pois é, começo a falar de mim, porque não tem como falar de ti sem falar de mim. 
A verdade, pai, é que passei boa parte da minha vida tentando fazer tudo certo, tentando desesperadamente conseguir tua aprovação no que quer que fosse. Mas as notas altas na escola sempre poderiam ser maiores - hoje entendo que esse era teu discurso incentivador naquela época, mas naquele tempo eu não entendia... - os presentes de dia dos pais feitos com tanto entusiasmo na escola às vezes levavam dias para serem entregues e eu... eu esmorecia... Veja bem, não estou te culpando, de maneira alguma, a questão sempre foi a expectativa... Ela sempre fode com tudo... E, no nosso caso, ambos tivemos. 
Sou tua primogênita, sei hoje, mãe de dois filhos, o quanto a gente erra (tentando desesperadamente acertar) com relação ao primeiro filho. Aliás, erramos sempre! Porque simplesmente não existe receita para ser pai, mãe, para lidar com outros seres humanos. Erramos porque cada um de nós é único e carregamos universos inteiros dentro da gente...
Sempre soube que tu queria um futuro legal pra gente, sempre soube que tu não queria que a gente passasse pelo que tu passou na tua vida, eu via o quanto tu te emocionava quando falava da tua infância difícil e eram nesses momentos em que eu me orgulhava tanto de ti. Eu sempre pensava: "Bah, ele conseguiu! Eu também vou conseguir!"
Depois disso, vieram as decepções, muitas, inúmeras delas! Lembro de ter te feito chorar quando disse uma vez que tinha vergonha de onde eu morava, para ti, que teve uma infância tão difícil, que chegou a morar na rua, aquilo soava absurdo. Depois, perdi a virgindade, engravidei, abortei, engravidei de novo, casei cedo... indicativos de um futuro de bosta, né? Fiquei casada dez anos com um cara que me agredia, tu descobriu da pior forma possível, num momento de crise. E, embora eu esperasse muito que alguém me tirasse daquela vida, desejasse muito que alguém desse o troco naquele sujeito, no fundo, no fundo, eu sabia que a escolha tinha sido minha e que somente eu poderia mudar aquela realidade...
Tu também me decepcionou. Foi aí que eu fui percebendo que tu não era aquele super herói que eu imaginava. Foi necessário, pai! Sofri demais para desconstruir as coisas que eu esperava de ti! Demorou tanto para eu perceber que tu era um ser humano e, como tal, também errava.
Demorou para que eu pudesse te reconstruir de uma maneira diferente dentro de mim. E, no começo, confesso que tu não me ajudou muito. Mas era tudo muito novo pra ti também, hoje eu entendo. Não é fácil para um cara com uma alma tão jovem que nem tu ser chamado de avô! (Risos!)
Mas, de "parente", tu te tornou um grande avô. Através dos meus filhos, tu foi te moldando para ser hoje esse grande avô pro Pedro. Que bom! A vida é assim, pai, as pessoas estão em nossas vidas com um propósito, quando cumprem seus propósitos, vão embora. 
Mas o amor, o amor é coisa engraçada... crescemos com a ideia - errada - de que o amor nunca muda ou nunca morre. Hoje eu entendo o amor de um outro jeito... às vezes sentimos raiva e até odiamos aqueles que amamos, nem que seja por alguns minutos... não é errado e não devemos nos culpar quando isso acontece. Às vezes precisamos nos distanciar daqueles que amamos, justamente porque precisamos de um tempo para reconstruir a pessoa dentro de nós, mas não significa que o amor tenha terminado.
Hoje vejo que o amor, ele muda, nos muda e não é e jamais será algo estático em nossas vidas. Eu aprendi a te amar e amar de novo muitas e muitas vezes na minha vida. E acho que ainda terão muitas outras... Nos constituímos amigos e parceiros, além de pai e filha, ao longo do tempo... Tu estava lá quando eu tive a crise de apêndice, tu estava lá quando eu levei uma das surras sérias do Guto, tu estava lá pra levar a Ju no médico quando o carro passou em cima do pé dela na escola. Tu esteve em tantos momentos, bons e ruins.
E eu, eu também estive lá, pai! Estive lá quando os términos dos teus relacionamentos foram doídos demais para tu suportá-los sozinho, quando tu precisou de um lugar pra ir, de pequenas coisas que um dia faltaram nos tempos de vacas magras... Temos esse raro privilégio de termos uma relação de amizade, que foi construída com sangue e lágrimas, mas que, a meu ver, se fortaleceu com o passar do tempo. Sei que posso contar contigo e tu sabe que pode contar comigo. E quem, Afinal de contas, pode dizer isso nos dias de hoje?
Tu és um ser humano muito lindo, talvez tu mesmo não tenha descoberto isso ainda, mas teu coração não cabe no teu peito, tu és generoso, sempre se doa para as pessoas que tu gostas. Mas o que eu realmente admiro em ti é a tua eterna juventude. Como diz aquela célebre frase, cujo autor não me recordo agora: "O corpo envelhece sem que a gente queira, mas a alma só envelhece se a gente permitir." Isso é um dom de poucos! Manter-se jovem! Eu admiro e respeito demais essa tua alma tão viva, tão leve... Ainda me sinto tão bem ao teu lado, tu ainda é a festa inteira, o cara alegre, o cara pra cima, que coloca todo mundo pra cima também, mas hoje já não me sinto presa em tentar te agradar, de forma alguma... "A nossa liberdade é o que nos prende!" Te amo muito, nunca duvide deste amor, nem mesmo quando estivermos afastados fisicamente! Porque amor latente também é amor!

A deusa que habita em mim saúda o deus que habita em ti!

Da tua filha, amiga e parceira de jornada, Carina. 




quarta-feira, 29 de março de 2017

Leão com Leão (Sobre a experiência de ter uma filha surda)

Hoje venho fazer uma reflexão... sobre as minhas vivências em relação à deficiência de minha filha... Sei que já escrevi algumas vezes sobre isso, todos sabem, e não é segredo para ninguém, que, depois do choque inicial da descoberta da surdez, eu parti para a luta... Escolhi caminhos difíceis e muitas lutas foram travadas desde então, luta pela educação especial, que sempre acreditei tanto, luta pelo uso e reconhecimento da língua de sinais, luta pela aceitação, pelo fim do discurso: "ahhh, que pena, mas ela é tão linda..."
A princípio, para deixar claro, não me arrependo de nada que sacrifiquei por ela, nada mesmo, inclusive faria tudo de novo. Até porque acredito que ser mãe é isso mesmo, abdicar dos nossos sonhos em prol dos sonhos dos outros, que são extensão do nosso ser...
Mas os questionamentos da Júlia acerca da deficiência dela sempre foram muito foda. Mesmo com toda a aceitação que ela teve, mesmo com a minha fluência na língua materna dela, às vezes me parece que nada é o suficiente. Vou tentar fazer um breve resumo dos desafios que a Júlia tem me imposto, desde que era muito pequena...
Júlia entrou na escola aos 3 anos e meio, graças aos deuses e a uma força sobrenatural que eu sequer sabia que tinha. Foi estimulada precocemente e alfabetizou-se na hora certa. Enfim, cognitivamente, sempre foi muito boa, eu diria que acima da média até... mas, passada a fase de perguntar as cores de todas as coisas (que acho que nós, ouvintes, vivenciamos com a fase dos por quês), um dia ela chega da escola, muito pequena ainda, com quase seis anos, e me pergunta algo que, em um primeiro momento, me paralisou. "Mãe, o que adianta eu orar em Libras, se Deus é ouvinte?" O chão saiu dos meus pés. Eis mais um estigma trazido pela igreja católica e que eu deveria quebrar com apenas uma resposta. A resposta me veio num sopro divino e acredito muito que tenha sido convincente: "Ué, mas nos EUA não falam inglês, aqui no Brasil, português, na Alemanha, alemão, e assim em cada país uma língua? Tu achas que Deus não entende todas? Então ele sabe língua de sinais também." Os olhinhos dela brilharam. Sim, ela se convenceu. Missão cumprida e aquele frio na barriga que me acompanhou por dias ainda... 
Depois, lá pelos dez anos, ela queria saber por que somente ela era surda na família. Na época, tentei respostas de todos os tipos: "A família do teu pai é muito antiga, os pais dele tem a idade dos meus avós, não conhecemos toda a família, pode ser que tenha havido algum surdo que não tenhamos conhecido.", "Tu vieste assim para que nós pudéssemos aprender contigo.", ou ainda, "Tem coisas que não se explicam, são assim, porque são." Nada convenceu. Nada. Tanto o é que até hoje ela ainda pergunta, vez ou outra, quando sofre alguma decepção (como se ser ouvinte a pouparia das decepções... não pouparia!). 
Um dos meus maiores choques foi quando, aos doze, ela me pediu para fazer o implante coclear. Nada podia ser mais doloroso para mim que, já inserida na cultura surda, não podia imaginar que ela tivesse esse desejo. Já tendo me aprofundado nos estudos culturais surdos, sabia que as chances dela eram pequenas, devido a idade avançada, de voltar a ouvir de fato. Então, começamos, as duas, uma pesquisa acerca do implante, o procedimento cirúrgico, tempo de recuperação, a porcentagem de recuperação real da audição. Ela desistiu. Eu fiquei aliviada. Mas então veio um outro processo depois deste, tão cruel quanto. Começou a me questionar do por que eu não ter tentado o implante quando descobri a surdez. As chances eram maiores. Sempre respondi a esse questionamento dela dizendo que a aceitei do jeito que era. Sempre aceitei a língua de sinais. Sempre aceitei a surdez como experiência cultural e não como limitadora. Mas, me parece, ela não. E isso antes me chocava, agora me entristece profundamente. 
Ontem, estava conversando com ela no messenger, pois, trabalhando 60 horas, muitas vezes é assim que me comunico com eles, acerca de possibilidades futuras. Júlia passou em dois vestibulares, mas não conseguimos bolsa de estudos e nem financiamento, ela desistiu, mais uma vez, do Jovem Aprendiz, enfim, disse para ela que ela precisa estudar para passar no ENEM e tentar uma bolsa no futuro. Coisas reais, já que ela fantasia muito ainda sobre as coisas da vida. Disse que empregos ditos "normais" não são fáceis e que, mesmo não convivendo com outros surdos, ela não se veria livre de situações provocadas por fofocas e mal entendidos. A resposta dela veio como um raio. Partiu-me ao meio. "Meus ouvidos estão mortos! Eu não ouço as pessoas falarem de mim." Meus ouvidos estão mortos... Isso foi pior do que qualquer outra coisa que ela já tenha me questionado. 
Não sei mensurar como me sinto diante dessas reflexões dela. A solidão que ela sente desde pequena e que eu nunca aprendi a sanar. Hoje entendo que esses sentimentos são externos, são coisas que ela talvez não sentisse se o mundo não fosse tão filho da puta. Se as pessoas não fossem filhas da puta. Fala-se muito em acessibilidade, mas a verdade é que o mundo continua excluindo, julgando, rotulando as pessoas diferentes. Eu aprendi a lidar com isso, ela não. 
Se houvessem mais pessoas dentro da família, dentro das instituições, mais pessoas no mundo que usassem com normalidade a língua de sinais, talvez ela não se sentisse tão sozinha. Se houvessem mais processos de conscientização e humanização dentro da comunidade surda, talvez ela tivesse mais amigos. Se houvesse mais investimento em educação, em treinamento de pessoas que atuam na área da surdez, talvez ela se sentisse mais segura para fazer o ENEM, mais segura e mais capaz. 
A verdade é que existe toda uma legislação, todo um aparato para garantir o uso e manutenção da língua de sinais, mas, na prática, a coisa não acontece. O currículo da escola especial é uma merda. A inclusão não funciona. E eles ficam ali, às margens de uma sociedade hipócrita que acha que abriu uma concessão porque aprendeu a falar "oi" em sinais. Perdi as contas de quantas e quantas vezes me perguntaram: "Mas ela não fala?" Fala! Fala em sinais. E como fala, mãos, braços, cotovelos. Expressões faciais e corporais que jamais disfarça. Uma beleza de língua. Sim, língua. Não linguagem e tampouco gestos. Mas a ignorância dessa população que tem mestrado, doutorado, mas não aprende que não é surdo-mudo, é só surdo. Não aprende que não é linguagem, é língua. Não aprende que ainda estamos longe da igualdade de oportunidades. Muito longe! Essa ignorância não tem limites!
E, enquanto isso, eu e ela vamos nos (des)construindo em nossos conflitos, eu sigo lutando em prol dessa bandeira tão difícil que é a inclusão e ela, ela pensa que os ouvidos dela estão mortos, mas não estão. Eu ainda não encontrei argumentos para provar a ela que não estão, mas vou encontrar. Só queria que ela acreditasse mais em si mesma. Que ela se visse com os meus olhos por um instante apenas. Daí ela conseguiria ver a força que tem e que não é à toa, ter nascido de Leão com ascendente em Leão! Não é à toa!