terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Vida e morte


Queria escrever algumas linhas sobre o final do ano... Passamos, enfim, por mais um prenúncio de fim de mundo... ilesos... Mas será que estamos mesmo ilesos? O mundo não acabou - ainda - mas gostaria de dimensionar o quanto estamos ilesos, o quanto estamos a salvo de nós mesmos. 
Vivendo em um planeta em que as pessoas estão cada vez mais egocêntricas, etnocêntricas e arrogantes, pessoas desumanizadas que não conseguem ver além de seus gramados e de seus umbigos... Enquanto a escola se esquiva de fazer seu papel humanizatório, vamos nos perdendo em meio a tanta atrocidade e mediocridade. Estamos vivos? Estamos protagonizando nossas vidas, nossas histórias? O que temos feito para que não passemos por aqui em vão?
Difícil falar sobre estas questões, mas, enquanto a programação da tv nos aliena, enquanto ficam na internet bisbilhotando as vidas alheias e se importando com o que é visto, o que acontece lá fora é a vida... sim, a vida... Independente de você participar dela ou não, ela está lá. Vibrando, colorindo, extravasando, sorrindo... com ou sem você!
E, um dia, como neste último domingo, você se dá conta de que a vida é tão efêmera e frágil... escorre por entre os dedos da gente, feito a areia de uma ampulheta. Você percebe o quanto é importante dizer o que sente, ser sincero - consigo mesmo - e cultivar os amores... Porque pode ser a última vez que você vê aquela pessoa... Pode ser a sua última chance de dizer que a ama, ou que ela o magoou. 
A Morte espreita a todos nós... Com este incidente em Santa Maria, em que morreram mais de 200 jovens, fiquei me perguntando, para quem eu mandaria a primeira mensagem, na eminência de minha morte? De quem eu gostaria de me despedir, de tranquilizar com a minha ida? Fiquei pensando, em meio a minha confusão e tristeza, que talvez - talvez - eu tenha tentado ir embora tantas vezes pelos meus próprios meios por causa da despedida. Para que eu pudesse me despedir de quem amo, dizer adeus, dizer que estaria melhor lá do que aqui... Não queria ser surpreendida por ela. Não queria que ela me levasse em um momento feliz, como fora profetizado outrora... Queria ir com a certeza de que deixei quem eu amo com as palavras certas...
Mas não controlamos isso. Não podemos conversar com a Morte e dizer: "Volte depois, ok? Tenho muito por fazer ainda!" Quantos aquele dia nem puderam despedir-se, talvez porque pensaram que sobreviveriam, talvez pelo simples fato cotidiano de não terem crédito em seus celulares... E, nesses momentos, em que nos sentimos tão pequenos frente ao acaso, é que aprendemos a dar mais valor às pequenas coisas, aos detalhes... Comecei a sorrir à toa lembrando do abraço tão natural do meu filho, vendo minha filha dormir, o amor de meus gatos por mim. Viver não é fácil... concordo... o mundo anda muito complicado, como cantou Renato (Russo) uma vez... Mas morrer também pode não ser um alívio... Principalmente quando deixamos alguém que sentirá por nós... Que saibamos valorizar cada momento, cada minuto junto de quem amamos, que saibamos valorizar a vida, pura e simplesmente, com seus altos e baixos e desafios constantes... Abrace, sorria, beije, quebre regras e seja feliz hoje, agora, porque o presente é a única coisa concreta que temos!




Quero deixar registrado o meu respeito e sentimentos relacionados ao ocorrido... muita coisa já fora escrita a este respeito e esta é apenas mais uma... Mas o último domingo fora o mais estranho de todos... sem nenhuma paz... 


Apenas mais uma de amor



A gente quase completou um ano de namoro, quase. Faltou um mês ou um pouquinho mais, não lembro. Mas hoje, sem mais nem menos, completamos um ano de separação. Ano passado essa hora, exatamente a essa hora, eu lembro bem. Eu estava no show do U2 que você não quis ir comigo e me ocupava em perguntar, de dez em dez segundos, e de dez em dez pessoas, quando é que você iria me ligar e dizer que tinha pensado melhor. Quando? Você nunca ligou, nunquinha. E eu esperei, esperei, esperei tanto tempo, nossa, como eu esperei. Acho que eu nunca esperei tanto nada em toda a minha vida. Outro dia a Myla me perguntou o que você tinha me ensinado. A gente estava conversando sobre os legados que as pessoas deixam em nossas vidas e ela quis saber qual tinha sido o seu. O coiso me ensinou a gostar de MPB e cinema europeu, o outro coiso me ensinou a gostar de sexo e restaurante caro. Teve o coisinho que me ensinou a ser engraçada e jogar frescobol. E você? Que raios me ensinou? Fiquei sem saber na hora, fiquei sem saber o que responder para a Myla. Mas hoje, no nosso aniversário de um ano separados, posso dizer que foi você quem me ensinou a lição mais importante da minha vida: você me ensinou a sofrer. Eu nunca, nunca, em vinte e sete anos de vida, tinha sofrido. Nunca. Claro, eu odiava ver meus pais quebrando o pau quando era criança, mas eu lembro que eu, pequenininha, pensava: um dia um príncipe vai me levar para longe dessa casa com gente louca que fuma demais, berra demais, desmaia e chuta vasos. Eu sofri também na escola, quando para alguém me enxergar eu tinha de promover bizarrices. Mas eu era muito nova para me separar das bizarrices e acabava também chamando a minha atenção: será que eu sou bizarra? Depois, em casa, quando eu dobrava direitinho o uniforme para o dia seguinte e me sentia um papel de parede bege que ninguém entende pra que serve, eu pensava: um dia um príncipe vai me levar pra longe dessa falta de vida, dessa falta de beleza, dessa falta de compreensão, dessa falta de cor, dessa falta de sei lá o que porque eu era novinha demais pra saber o que faltava. Esperar o raio do príncipe sempre disfarçou minha dor, sempre me refugiou dela. Mas quando você, no dia 20 de fevereiro de 2006, me mandou seguir meu caminho sozinha, fiquei sem saber como fugir da dor. Você era meu príncipe. Depois de tantos amores estranhos, pequenos, errados e tortos, finalmente eu tinha reconhecido no seu olhar centralizado e no seu sorriso espalhado, o meu príncipe. E o meu príncipe estava me dando o fora. Que porra eu ia esperar da vida agora? Quem iria me levar para longe se você não me queria mais por perto? Não teve como. Foi a primeira vez na vida que não consegui me enrolar e acabei deixando a dor vencer. Pela primeira vez a realidade falou mais alto que a fantasia. Pela primeira vez a realidade da sua ausência falou mais alto que a fantasia de anos a sua espera. Sofri pra caralho, como diz por aí quem sofre pra caralho. Mais do que livros cabeças, músicas bacanas, frases inteligentes, lugares descolados ou posições sexuais, você me ensinou o que realmente importa aprender nessa vida: que a vida pode ser uma grande, imensa e gigantesca merda. É, ela pode ser. E que não existe porra de príncipe porra nenhuma. Que nem ninguém e nem nada pode te levar para longe de nada. É isso e pronto. E é assim pra todo mundo. E pronto. Qual o drama? A dor infinita dos dias infinitos que vieram depois do dia em que você se foi pra sempre veio misturada com toda a dor que eu não senti em todos esses anos.A dor infinita dos dias infinitos que vieram depois do dia em que você se foi pra sempre veio misturada com toda a dor que eu não senti em todos esses anos. A dor do seu pé na bunda trouxe vasos jogados, bitucas eternas de cigarros em longas discussões pesadas, tardes perdidas em odiar o mundo, cabeças viradas, corredores frios, papéis de parede beges e grupinhos festivos e fechados. A nossa dor acabou sendo toda a dor que fazia fila em mim para ser sentida. E já que a porta pra realidade estava aberta, por que não sofrer também pelas criancinhas carentes, os países em guerra, a estupidez humana e a dor das juntas da minha mãe? Por que não sofrer pela condição das favelas, das prisões e da Terra? Por que não temer o aquecimento global, o ácido dos limpadores de vidro na Henrique Schaumann e as frases do Clodovil? A dor da sua partida trouxe toda a dor do mundo. De uma só vez. Mas agora já passa da meia noite. Não é mais nosso aniversário de fim e, pra te falar a verdade, eu já não sofro mais o nosso fim faz tempo. E pra te falar ainda mais a verdade, eu acho mesmo que você foi o príncipe que eu esperei a vida inteira. Você chegou e me levou embora. Levou embora a menina que tinha medo de sentir a vida e esperava uma salvação para tudo. Quem sobrou é essa desconhecida que se conhece muito bem em suas bizarrices, lê jornais todos os dias, substituiu o bege pela cor do verão, tem uns pais gente boa ainda que malucos, adora os poucos e estranhos amigos, não espera mais pelo cavalo branco mas fica ansiosa pelo início da novela e talvez esteja pronta para amar de verdade. Amar um homem e não um príncipe.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Ciclos que se findam



Hoje estou num misto de euforia e tristeza... Virando algumas páginas da minha vida em definitivo... A formatura da minha filha com certeza é um marco de uma delas. Há alguns dias que tenho lembrado, com certa nostalgia, de toda caminhada até aqui... Já falei outrora do quanto batalhei para mantê-la no lugar que considerava o certo para ela. Não me arrependo nem um pouco disto.
Imaginem que uma criança poderia viver isolada, poderia viver sem ter uma linguagem, sem ter comunicação com as pessoas mais próximas a ela... Imaginem esta mesma criança se relacionando num futuro, não muito distante, porque o tempo passa muito rápido. 
Quando a Júlia tinha dois anos fiz meu primeiro curso de Libras. Quando ela completou três anos e meio, procurei a primeira escola, mas essa mesma escola não oferecia o ensino que eu acreditava ser o ideal, por isso ela não continuou lá... Foi então que, quando ela tinha quatro anos e meio, aceitamos o desafio de irmos para longe de casa, enfrentamos o desconhecido porque eu acreditava que a educação especial era o lugar dela... e, infelizmente, não temos escolas especiais em qualquer esquina.
A partir daí, essa história começou a modificar-se... A criança que poderia ter passado anos de sua vida sem linguagem e sem comunicação, passou a ter uma, passou a informar e ser informada das coisas mínimas do dia a dia e isso fez toda a diferença na vida dela. Percebi, então, no quanto eram importantes as pequenas coisas e que ela, assim como o Luan, seu irmão, também seria criada para o mundo... E não poderia ser diferente!
Poderia discorrer aqui as chuvas, os temporais que pegamos em nossos caminhos, mas prefiro discorrer sobre as flores, os frutos que colhemos... Conheci inúmeras pessoas, que concordaram comigo ou que me fizeram repensar e/ou ter certeza de algumas coisas... Algumas pessoas que fazem parte da minha vida até hoje, outras que me ensinaram coisas importantes e foram embora... 
Mais do que nunca, tenho certeza plena e absoluta de que fiz o que era certo. Foi a educação especial que colocou a minha filha no mundo depois de mim.
E, para aquelas pessoas que acreditam que a inclusão é melhor porque os surdos precisam se adequar ao mundo ouvinte, tenho uma pequena mensagem para vocês: "Não, não se preocupem, não mandarei vocês à merda, como vocês bem mereceriam, mas o que eu tenho a dizer é que a inclusão minoriza o surdo, faz com que ele se sinta inadequado, deslocado, imperfeito... Minha filha se aceita como é, linda e perfeita, se vê completa porque teve professores que mostraram isso a ela no dia a dia, porque pode conviver plenamente com seus pares e isso é maravilhoso! Fui eu quem me adequei a ela e não ela a mim, como tudo deveria ser... E mais: eu tento fazer com que meus alunos surdos se sintam assim como ela, completos! Pena que vocês não consigam ver a grandeza que há neste outro mundo, nem pior nem melhor do que o nosso, apenas DIFERENTE!"
Findando este ciclo de minha vida, de nossas vidas, me sinto orgulhosa e envaidecida do que me tornei. Poderia dizer a todas as famílias, como de fato faço quando tenho a oportunidade, que a Libras foi o melhor caminho, embora não tenha sido o mais fácil. O medo do desconhecido muitas vezes tentou me paralisar, muitas vezes me fez pensar em abandonar tudo. Mas encontrei forças nos meus filhos, como sempre o faço, e criei uma pequena comunidade bilíngue dentro da minha própria casa.
E agora vamos embora para as outras lutas que se seguirão a partir de agora, ensino médio, faculdade, especializações... E estarei aqui, batalhando para que seja de qualidade e, principalmente, para que respeitem as particularidades dela, em qualquer lugar, porque ela é capaz e muito, mas muito especial! Como cada um de nós!


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Todos temos histórias para contar!


Ontem voltei a um lugar que há muito tempo não ia... Anos se passaram desde a última vez que pisara ali e voltar, depois de tanto tempo, fez com que eu remexesse em coisas que estavam guardadas em algum lugar aqui dentro.
Tem lugares que deixam o passado em suspenso... Lugares em que você ainda pode se ver fazendo as velhas coisas, revivendo as mesmas cenas...
Quando este passado é de lutas e sofrimento, a velha dor volta. Inevitável! Passei por longos anos ali. Um lugar que me era completamente estranho, mas que, com o passar do tempo, fui tomando posse das ruas, dos lugares e foi se tornando familiar.
Reconhecer os antigos lugares hoje me é doído, pois o contexto de outrora não era dos mais leves, não era simples... Relembro um passado de batalhas, em que ficava horas e horas do meu dia longe de casa com meus filhos pequenos, mas era necessário...
Descobri que Esteio poderia ser uma cidade tão boa quanto São Leopoldo, sonhei em mudar para lá durante muito tempo, pois passou a ser tão parte da minha vida, das nossas vidas, quanto a cidade em que nascemos.
Reviver, repensar, redescobrir, voltar sob um novo contexto me é extremamente prazeroso. Olhar para o velho com um novo jeito de olhar e isso é extremamente importante. Reconhecer o quanto cada história, cada época, cada momento, nos oferece algo de bom, por mais difícil que possa parecer no período em que o estamos vivenciando...
Histórias, todos temos, elas fazem parte do que somos, nos constituem enquanto pessoas, seres humanos... Vamos nos traduzindo, transmutando através de nossas vivências... Quando um passado é de superação, como este, vale a pena ser revisto... 
Quando fui embora, lamentei pelas amizades das quais me distanciaria, sabia que seria difícil manter as tais amizades com a distância em quilômetros, mas, ainda assim, a vida me oferecera oportunidades de ver aquelas vivências com certa nostalgia. 
Hoje posso falar com muito orgulho que fui e sou uma mãe que lutou e ainda luta por ideais. Mas hoje, além de mãe, também sou profissional. E é este novo contexto que apresento. Porque, infelizmente, ou felizmente, há saberes que são mais reconhecidos no meio acadêmico. Minha experiência de 14 anos como mãe de criança surda nada vale frente ao meu diploma, de uma faculdade cursada em cinco anos. Mas, se é isso que exigem, é isso que agora ofereço!
Alguns olham o lugar em que estou hoje e dizem que tive sorte... Mas, olhando para trás, para os anos em que fiquei sentada num banco, esperando por minha filha, enxergo as muitas lutas e medos enfrentados com dignidade. Não tive sorte, ou até tive, mas lutei muito e carreguei muita pedra para chegar até aqui... E, olhem bem, não estou nem na metade do caminho. Ainda tenho muita história por escrever! E para contar, então... Com muito carinho, com muito orgulho! Pois tem coisas que não devem ser esquecidas.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Livros


Sebos me encantam... Realmente não tenho como passar na frente de um sem parar e entrar, visualizar aquelas estantes abarrotadas de livros e sentir os cheiros de livros velhos... A paz da biblioteca num final de tarde... A paz do domingo de sol preguiçoso... Gosto de sentir os livros, todas as suas histórias, todo o conhecimento do mundo à nossa disposição que, nem que conseguíssemos a façanha incrível de vivermos cem anos, conseguiríamos dar conta de absorver tudo...
Comprar livros em sebos me é um prazer porque sempre fico a imaginar por onde eles andaram antes de irem parar na minha estante, na minha mochila... Há livros que vem com nomes, com assinaturas, com anos... Os últimos que comprei já circulavam por aí antes mesmo de eu nascer... Veja bem quanta magia há nisto! Antes de eu nascer alguém lera o que estou lendo agora... Apago os nomes para cuidadosamente colocar o meu próprio nome nos respectivos lugares e, olhando para as páginas já amareladas penso no legado que deixo aos meus filhos a cada quantia gasta - não, investida - em livros. E quanta, mas quanta história eles carregam... Terão estado em outros países? Será que o antigo dono sentou-se em alguma praça de Paris para lê-lo? Ou no trem de ida para Macchu Picchu... Ou ainda diante dos moinhos da Holanda... Por quantos lugares terão passado estes livros antes de chegarem a mim?
Também se faz necessário dizer que sinto uma pontinha de pesar quando apago estes antigos nomes... Não por seus velhos donos, mas por não podermos fazer isso com certas pessoas também. Porque seria tão simples apagarmos toda uma história com uma simples borracha, seria tão reconfortante guardarmos apenas as lembranças que valem a pena... E, afinal de contas, quais realmente valem e como saber as que não valem? Costumo dizer que o passado nos constitui como pessoa, que nossas histórias são parte do que hoje somos... Mas como certas coisas são doídas de se lembrar... Mesmo sendo parte da gente, tem fantasmas que não nos abandonam nunca mais... E aquela velha cena permanece lá: intocada pelo tempo. Você sente determinados cheiros, escuta determinadas músicas e, num passe de mágica, está lá revivendo, de novo e de novo... Os livros também fazem isto com a gente... E ultimamente tenho sentido vontade de reler o já lido, de rever o já visto, só para ver como estas coisas irão me atravessar agora... Certamente não será da mesma forma que me atravessaram outrora... Sou assim, de tempos em tempos tenho essa necessidade louca de me reinventar... Uma boa leitura pode fazer isso com a gente, mesmo que já seja a segunda, terceira vez que lemos algo, certamente nos transformará de uma forma diferente das outras... porque não somos os mesmos de ontem. E certamente não seremos amanhã os mesmos de hoje. A vida nos transmuta, nos transforma. Então, preste atenção no que vou falar agora: não sou a mesma por quem você em algum momento se encantou, se apaixonou. E é certo que o que trouxe essa paixão, este encantamento, já nem existe mais, nem lá fora e tampouco aqui dentro. Culpa dos livros. E, quer saber? Vou continuar me transformando. E você nem me conhece mais! A graça é exatamente esta: ter de me (re)conquistar todos os dias... Comece lendo livros, assim você se transforma também...


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Inclusão dentro da minha angústia



Eu sou mãe de uma menina surda, hoje ela está com 14 anos, mas minha caminhada e minhas lutas acerca da causa começaram há muito tempo. Fiz minha formação pensando em aprender maneiras de lidar com ela e potencializar o seu aprendizado, hoje sou pedagoga em educação especial e intérprete. Atuo também como professora de AEE de surdos. Minha filha sempre esteve dentro do ensino especial, o que, durante muito tempo, precisou do meu sacrifício para que pudesse se concretizar: levava-a até a escola e ficava a tarde toda esperando por ela, uma vez que era impossível voltar para casa. Assim sendo, o irmão dela também acabou tendo de se moldar a esta realidade, começando seus anos de escolarização em Esteio, ao lado da escola em que a Júlia estudava. Optei pela educação especial porque entendia o quanto era importante para ela estar dentre seus semelhantes, ter professores surdos que certamente serviriam de exemplo para ela, ao longo de sua vida. Ao longo da faculdade, tive como estudar a inclusão, me aprofundar neste assunto, embora jamais tenha pensado que seria uma opção para a minha filha. Muita coisa aconteceu desde então, trabalhei anos com educação ambiental e fora da minha área, até surgir um contrato para ser intérprete pelo Estado, que foi a oportunidade que tive de trabalhar com o que sempre gostei: educação de surdos.
Estou trabalhando há um ano e meio nesta área e devo dizer que hoje vejo que caminhamos lentamente rumo a um processo realmente democrático e inclusivo. Paciência histórica, precisamos de paciência histórica, me disse minha prima que também é professora. Paciência histórica para sabermos esperar o tempo necessário para que as mudanças se estabeleçam. Eu busquei ter esta paciência, mas não me abstive de lutar pelas coisas que considero certas. Difícil esperar quando as mudanças urgem também. Trabalhei durante o ano passado com um aluno que, além de surdo, tinha algumas outras deficiências, inclusive motora, um aluno que, a meu ver, simplesmente fora jogado ali. Os professores, em sua maior parte, sequer tomavam consciência da presença do aluno ali. Planejamento especializado? Lenda! Ali começou uma discussão sobre a função da intérprete dentro da sala de aula e muitas e muitas atrocidades ocorreram até a mãe deste aluno resolver retirá-lo da escola este ano. Lamentável.
Eu penso que ainda estamos nadando contra a corrente quando nos referimos à inclusão de surdos. Ainda temos muito que aprender. Vejo pessoas especialistas falando equivocadamente da educação de surdos, até porque não fazem a distinção de surdos e deficientes auditivos, o que o próprio Capovilla (2010, pág 08) diz ser uma aberração. Para mim, é óbvio que o deficiente auditivo pode se adequar à escola inclusiva sem requerer muitas adaptações ou mudanças. Mas e o surdo? O sujeito que só usa e se comunica através da Libras, onde fica nesta história? Ele dependerá única e exclusivamente da boa vontade e, principalmente, do conhecimento de suas intérpretes. E, minha gente, depender de conhecimento é uma coisa muito séria quando falamos de educação, porque a maior parte dos professores e educadores que conheço se contenta com o ensino institucionalizado e com os diplomas, ninguém se informa, ninguém segue lendo a respeito de nada. Se não tiver certificação, não há formação. E seguem as práticas arbitrárias, a falta de sensibilidade e ética e a inclusão de surdos sendo operada como se fosse qualquer outra.
Sinto-me de mãos atadas, sinto que as mudanças pelas quais lutei ao longo deste ano, seguirão utópicas, pois o discurso que impera é o da facilitação do trabalho. Intérprete só quer a neutralidade porque a neutralidade não requer trabalho e nem estudo. Vou, interpreto a aula e vou embora, tendo cumprido o meu horário. O surdo que se vire no restante do tempo. Neutralidade não existe na educação, insisto em dizer. E, como Freire mesmo fala, por trás da neutralidade também há uma intencionalidade. A partir de outras desistências que ocorreram neste ano, sinto o peso do fracasso em minhas costas. Não há como não sentir! Muita coisa tem de ser debatida e confrontada. Urge que a função do intérprete nas escolas seja homologada e que sejam pensados em deveres destes profissionais através de pesquisas e de muita contestação, urge que o surdo seja ouvido, que ele mesmo fale sobre como quer que ocorra seu processo educativo, urge que a escola inclusiva coloque a Libras em seu currículo – não somente no Magistério – para que a inclusão passe a tornar-se uma realidade.
Aprendi que incluir não é apenas “colocar para dentro”, que incluir requer mudanças significativas, afinal, inclusão/exclusão são duas das faces de uma mesma moeda. Não podemos jamais nos esquecer disto. A partir do momento que eu olho para meu aluno surdo – e estou falando de surdo mesmo, não deficiente auditivo – e digo que ele que tem que se adaptar ao mundo majoritariamente ouvinte, estou esquecendo de que este sujeito é histórico e cultural, de que este sujeito constituiu uma identidade diferente da minha e que, portanto, deverá ser atendido e respeitado nas suas especificidades. Mas, tudo isso, todo este discurso, faz parte dos jogos de poder que permeiam as instituições, enfim, há uma intenção bem clara nele, ela traz vantagens a quem o promove e uma destas vantagens é não ter de “desarrumar” a casa para receber a diferença. Visão integracionista da inclusão, de que é o sujeito que se adapta ao meio. Esta visão nem existe mais, uma vez que a própria Declaração de Salamanca já diz que o surdo, devido à sua particularidade lingüística, seria melhor atendido nas escolas e classes especiais que visam a educação bilíngüe.
E a gente vai cansando deste tipo de gente e deste tipo de discurso. Não estou dizendo que não acredito na inclusão. Longe disso. Mas considero que mudanças devem ser feitas, as pessoas devem parar de entender a surdez como um déficit, uma deficiência, uma falta... O surdo é um sujeito que está dentro de uma cultura diferente da nossa. Da mesma forma que os índios, os judeus e os muçulmanos. Portanto, a inclusão deve ser pensada a partir disso: como acolher esta diferença em minha sala de aula?  Chega de pensarmos em meios de reabilitação, o surdo não precisa ser reabilitado, ele precisa ser entendido! Então, que a luta pelo respeito à língua siga adiante, que o ensino bilíngüe preveja um futuro para estas crianças e adolescentes e que a cultura surda permaneça!




sábado, 20 de outubro de 2012

Descaso humanitário


Estava há cerca de dois meses para escrever sobre este assunto, mas, hoje, tendo acontecido novamente, percebi que não dormiria bem se não escrevesse antes de deitar... A questão é que quando ando de trem posso sentir o quanto as pessoas andam duras... Não podem perceber as pequenas magias que as cercam... A questão que trago hoje muito provavelmente já permeou muitas realidades, pelo menos daqueles que já andaram de trem alguma vez na vida...
Eu vou a Porto Alegre uma vez por semana por conta de uma pós graduação que faço por lá, então é certo que neste dia estarei no metrô, isso sem contar as outras vezes que vou a passeio em finais de semana, é um meio seguro, prático e ágil de ir para lá, algumas pessoas inclusive deixam seus carros em estacionamentos para evitarem o trânsito caótico da cidade. Enfim, quem utiliza o trem para seu deslocamento sabe que muitas e muitas vezes encontrará aqueles famosos personagens que estão sempre por ali: pedintes, vendedores e afins. Então, a prática de todos em geral é sempre a mesma: eles te dão um papelzinho com um breve histórico que explica o por que de estarem ali... Quando são surdos, dizem que são surdos e normalmente o que vendem vem junto com o alfabeto em Libras, que certamente irá parar em alguma lixeira por aí...
Então, o que venho relatar hoje, são duas experiências que tive com alguns destes personagens típicos, uma há uns dois meses e outra nesta última semana... 
Eu estava voltando, depois da aula, umas dez e pouco da noite, quando entrou no vagão em que eu estava um menino - que depois percebi estar acompanhado por outro menino mais jovem ainda que ele - carregando uma sacola visivelmente pesada demais para ele... Ele se ajeitou em um canto e tirou da sacola uma caixa de balas de goma, dentre outras que ainda ficaram na sacola. Ele passou de pessoa em pessoa oferecendo as balas, vi que alguns próximos a mim compraram algumas... Eu comecei a fuçar a minha carteira para ver se tinham ainda algumas moedas, porque geralmente fico sem dinheiro na maior parte do mês, mas felizmente eu tinha cerca de dois reais ainda... Entreguei as moedas, tudo o que eu tinha, nas mãos dele e disse que não queria bala, que era só para ajudar... Observei que ele e o outro menino pequeno sentaram-se num banco e se puseram a contar pacientemente as moedas que tinham, quando, em uma estação qualquer, entra um homem com uma bolsa, trazendo alguns folhetos xerocados com ele. Ele passa a distribuir os folhetos de pessoa em pessoa também, sendo ignorado por muitos. Era um texto com duas fotos, de uma criança acamada, em estado bem grave, dizendo que necessitava de uma cirurgia urgente, que não tinha disponível pelo nosso sistema de saúde. Li o texto e lamentei ter entregue todo o meu dinheiro ao menino, pois não tinha nada com que pudesse ajudar aquele homem abatido. Mas eis que percebo neste momento que os meninos que estavam logo a minha frente pedem para ler o papel que o homem tentara distribuir aos demais e o maior se coloca a ler em voz alta o conteúdo do folheto para o menino menorzinho. Vi algo que meus olhos custaram a crer: o menino pegou todas as moedas que tinham e entregou para aquele homem. Um gesto que muitos ali dentro sequer se importaram em não poder fazer. Ao observar aquilo, tive a certeza de que ajudei aos três, mesmo que indiretamente e pensei que a Grande Mãe muitas vezes opera de uma forma que custamos a entender. Os dois meninos, que, naquela hora da noite deveriam estar na segurança de seus lares, dormindo em flanelas macias, fizeram algo que a humanidade já não é mais capaz de fazer: olhar o seu próximo com compaixão. Eu me emocionei com aquilo e me toquei... Quando todos ali permaneciam inertes em seus mundos próprios, eu visualizei um milagre e chorei... Sabia que nunca mais seria a mesma depois daquele dia...
Nesta última semana, também na volta da aula, tarde da noite, observei que entrou no vagão do trem em que eu estava um menino, adolescente já, com 15 anos, como pude constatar ao ler o papel que entregou em minhas mãos. O papel, um pequeno xerox, com um texto de um português extremamente correto, falava que ele, o Matheus, estava ali pedindo dinheiro para ajudar seus pais que estavam desempregados. Eu só tinha cinco reais no bolso e queria voltar para casa de ônibus, pois estava cansada demais para caminhar. Então, quando o menino se aproximou de mim para pegar seu papel, com a possível doação de volta, eu propus a ele que trocasse o meu dinheiro, desta forma, lhe daria 2 reais e ele me daria o troco de 3. Puxei conversa com ele e ele ficou ali por perto numa conversa inicialmente tímida, mas que se aprofundou, pois ele permanecera a viagem toda perto de mim me contando um pouco de sua história. Disse que parou de estudar porque incomodava demais e quando a escola chamava sua mãe, ela não podia ir até lá por conta dos cuidados que dispensava ao filho com deficiência. Numa família de 8 irmãos, sendo que 4 estão casados e vivendo fora de casa, Matheus é o segundo mais velho, assumindo as responsabilidades de trazer o sustento aos seus demais familiares porque a mãe cuida do irmão que tem deficiência intelectual e o pai perdera o emprego que tinha de segurança de uma obra porque a obra fora fechada. Explicou que em muitos dias nem chega a voltar para casa, pois mora muito longe do centro da cidade e em muitos dias não consegue dinheiro suficiente para ir para casa de ônibus. Tive a oportunidade de falar para ele algumas coisas que considerei importantes já que não tínhamos muito tempo, que era muito importante que ele voltasse a estudar, nem que fosse para dar o exemplo aos seus irmãos menores, disse que ele precisava preservar sua segurança, enfim, quando descemos na estação, dei um abraço apertado nele, ciente de que plantei uma semente ali, mesmo que pequena...
Trouxe este relato porque sinto quando não posso ajudar estas pessoas... realmente sinto. Alguns dizem: "mas e se gastar com drogas?",  "e se levar para casa e o pai for alcoólatra?" e eu vou dizer uma coisa a vocês: acredito muito em fazer a minha parte, em fazer o bem sem olhar muito a quem. Se a pessoa que ajudei fizer um uso errado da ajuda que dei, pois bem, quem estará adquirindo uma dívida com o Universo será ele, não eu. Há um descaso imperando por toda parte, um discurso pronto, articulado de forma que as pessoas sintam-se menos responsáveis umas pelas outras... Mas queria que estes discursos não endurecessem a humanidade como tem endurecido nos últimos tempos... Queria que as pessoas dessem um outro olhar, se colocassem um pouco no lugar do outro. Sou assim mesmo, idealista... Acredito que mudamos o mundo começando por nós mesmos. Muitas vezes não tenho um real para dar, mas sempre, sempre, terei uma palavra amiga para compartilhar, um sorriso, um desejo de "boa sorte"... Estender a mão nem sempre significa ajudar financeiramente, muitas vezes pode estar em um olhar, em uma palavra... Então, pessoas, o que tenho a dizer é que espero que a humanidade volte a ser humanizada e humanizadora... Que estejamos sempre atentos a estes pequenos sinais mágicos que a vida nos dá, pois a grandeza muitas vezes está mais perto de nós do que possamos imaginar... Que este descaso humanitário não seja mais parte de nossas rotinas... Que nossos sorrisos salvem essas pessoas da indiferença que as assola!