segunda-feira, 1 de abril de 2013

Ser mãe...

Fui uma adolescente rebelde... Admito. E minha rebeldia, de certa forma, perdurou até os dias de hoje... Mas, ainda assim, reconheço e entendo os sacrifícios que minha mãe fez por mim... Até porque ela me lembrou disso durante um longo período de minha vida... Depois que fui mãe também, entendi que a maternidade de fato se resume a renúncias e sacrifícios. Somente aí que consegui perdoar a mim mesma pelo que fiz minha mãe passar... Entendo estas renúncias de uma forma diferente da que ela sempre entendeu e jamais culparia um dos meus filhos pelos sonhos que perdi no meu caminho, exatamente porque eles trouxeram outros sonhos com eles... 
Ser mãe é despojar-se, ser vulnerável todo o tempo, ficar desprotegida... Porque nosso corpo passa a não mais nos pertencer, partes dele passam a andar soltas por aí e, sabemos, caso algo aconteça com quaisquer uma destas partes, jamais voltaremos a ser o que éramos antes. Depois que fui mãe e minha história se cruzou, se alinhou, com as dos meus filhos, entendi que sacrifício não era somente o que minha mãe falava. Sempre gostei de tomar banho por último, sempre gostei de arrumar, cuidar da casa, isso nunca foi problema para mim... Sacrifício é muito mais do que isso. 
Claro que hoje não adiantaria discutir estas questões com ela, porque ela sempre, sempre pensará que se doou mais, que sofreu mais, que sua vida foi dez vezes mais difícil. Mas a questão que trago hoje é que, não importa quantas dores, não importa quanto sofrimento, não importa o número de coisas que tenhamos de renunciar, o que realmente importa é o olhar que damos a tudo isso. Tive uma filha surda, tive coragem de ter outro filho depois para que ela não ficasse sozinha, tive um casamento que durou muito mais tempo do que fora profetizado na igreja, muito mais tempo do que deveria ter durado... Fiz faculdade, batalhei para que a minha filha tivesse uma educação de qualidade, sendo que a escola dela não era a duas quadras da minha casa... Mas alguém me deve algo por tudo isso? Não! Caí, sacudi a poeira e segui adiante porque tinha dois motivos que me faziam acordar todos os dias e dar novos significados às minhas manhãs. Só eu sei quantas e quantas vezes pensei em desistir, mas, ao vê-los dormir, parei à porta e desfiz as malas... 
Hoje posso entender que também não devo nada à minha mãe... Porque ser mãe é auto sacrificar-se, é doar-se ao outro sem pedir nada em troca, esse é o significado do amor incondicional que devemos ter pelos nossos filhos. Assim como eu, Carina, jamais cobraria nada dos meus amados filhos, não permitirei mais que me seja cobrado. Cresci! Mas a rebeldia continua, mãe, como você pode ver! Assim como você, também travei lutas solitárias, também chorei muitas madrugadas e o que sofri em meu doce casamento foi muito, mas muito pior do que traição, do que abandono... Insisto em dizer que somos sozinhos em nossos sentires. Realmente o somos. Jamais irei me aproximar do que você sentiu assim como você jamais irá se aproximar do que senti. Mas a diferença entre nós duas é somente uma: eu me responsabilizei por minhas escolhas, cada uma delas, mesmo aquelas que fui influenciada a fazer. Você seguiu sua vida culpando os outros, inclusive a mim, talvez por ser a filha mais velha, talvez por realmente não poder cobrar do meu irmão por nunca ter feito muito por ele... (Muito embora já tenha ouvido você falar muitas vezes de quando ele quebrou o braço, de como recorreu a você.)
Mãe, talvez você precise dramatizar para se sentir realmente útil. Mas te digo que existem muitas outras maneiras de sentir-se assim. Dar comida aos animais de rua, um sorriso e um desejo de boa sorte àqueles que precisam de nossa ajuda e que por algum motivo não podemos ajudar naquele momento. E, desses, jamais poderemos cobrar aquilo que fizemos, porque o fazemos de coração, não buscando um lugar no céu. Porque recompensa, mãe, é o que se ganha quando se tem a consciência tranquila, a sensação de dever cumprido. Recompensa, mãe, é poder deitar a cabeça no travesseiro e adormecer tranquila, porque não há contas a serem pagas. Eu durmo tranquila, mãe, pode acreditar! Que bom que você também pode fazê-lo!

sexta-feira, 29 de março de 2013

Maternidade/paternidade é eterna!

Gostaria de escrever algumas linhas sobre a maternidade/paternidade. Pode parecer clichê, mas, dentro deste assunto, até o que parece óbvio não o é. Maternidade/paternidade é para sempre. Isso é óbvio, mas muita gente não pensa assim. Aliás, em dias de relações transitórias e prazeres momentâneos, até um assunto tão sério se torna modismo. 
Quando peguei o exame com a palavra "positivo" escrita nele, minha vida mudou, tomou outros rumos, cresceu em responsabilidades, nunca mais foi a mesma. Costumo dizer que nunca mais tive uma noite de sono profundo, como tinha antes, nunca mais. Qualquer barulho me faz acordar de sobressalto, qualquer gripe faz com que eu não fique tranquila fora de casa... Só tenho paz e sossego quando os tenho no ninho, embaixo de minhas asas. 
Quando me separei, fiquei com eles, eles passaram a ser a minha prioridade, nunca os envolvi em relações efêmeras, eles só conheceram pessoas que eu acreditei que seriam eternas em nossas vidas. Mas, enfim, todas as pessoas que conheci, sabiam da existência deles, sabiam do respeito que tenho por minha casa, sabiam que meus filhos sempre, sempre viriam em primeiríssimo lugar em minha vida...
Estou me manifestando a este respeito porque tem gente que acha que filho depois de criado não é mais problema de pai e mãe. Ou pior ainda, que quando ocorre a separação, os filhos são responsabilidade de apenas uma das partes. Que grande erro, que grande engano! Filho não deixa de ser filho depois que cresce. E ainda tem os netos, bisnetos, que coisa linda ser vô/vó parceiro! Não entendo como podem ter pessoas que abrem mão disso... 
Meus filhos estão moços, mas ainda pego no colo... Imagino-me com oitenta anos preocupada com eles com seus sessenta. Filho é filho, jamais deixará de ser... Para aqueles que se separam e se distanciam, tenho uma coisa a dizer: a vida traz a conta. Traz mesmo. Um dia você olha para trás e tenta voltar... O tempo não se resgata, tampouco o amor. 
Pai e mãe é para sempre, mas lembrem-se de quem é o adulto da história, quem tem que construir estes laços para que tenham continuidade no futuro... É uma grande responsabilidade. Por isso, meu amigo, minha amiga, pense bem antes de transar sem camisinha, pense bem antes de querer ter filho porque todos os casais estão pensando em ter. Filho é para sempre, não tem prazo de validade e sequer podemos desistir da aquisição quando as coisas não saem como esperávamos. Filho é o amor mais puro e incondicional que podemos sentir, mas nem todos estamos preparados para tanto... Só pense em ter quando você estiver, pense nisto!

terça-feira, 26 de março de 2013

Ser salva...

Então é assim, exatamente assim que era pra ser... Cresci acreditando em algo, alguma coisa que pudesse me resgatar, me tirar das velhas flanelas da infância. Durante muito tempo acreditei em heróis, fadas, duendes, o fantástico mundo que me absorvia nos momentos de solidão e desespero. Meu pai durante muito tempo fora meu herói... aquele por quem eu esperava ansiosa na janela da frente de casa, aquele que vinha me resgatar do quarto decrépito e mofado, com fraldas penduradas por todos os lados, móveis apertados... Mas muitas e muitas noites a espera era em vão. O mundo de fantasia que eu criava olhando para a rua, tentando reconhecer em cada farol aquele farol que iluminaria meus dias, acabava indo embora e eu tinha de voltar à dura realidade que me assolava. A velha cama e o sono do esquecimento, era, então, o meu destino.
Depois, muito depois, fui criando outras ilusões, outros mundos... Meu pai seguia sendo minha referência, mas não mais como antes... Já sabia que ele não me salvaria de nada, embora eu ainda quisesse...
Acabei acreditando que existiria alguém, um alguém que viria de longe e que me levaria, também, para longe. Tal qual vemos nos contos de fadas, projetei o tal "príncipe" em cada carinha com quem me relacionei desde então. Cada um foi uma possibilidade de príncipe perdida... Pior do que isso, foi uma parte de minha própria alma arrancada de mim mesma...
Durante muito tempo sonhei com o momento de ser salva. Muitas e muitas vezes me perguntava do que queria ser salva e a resposta era sempre a mesma: de mim mesma. Sim. De mim mesma. Sempre fui o meu próprio algoz... Difícil de entender... Até considero que, no fundo, o que eu queria mesmo era que alguém viesse e me entendesse... Entendesse esse meu instinto suicida e segurasse minha mão até mesmo quando eu acho que tudo está perdido por bobagem... 
É muito estranho olhar para trás e poder ver tudo isso. Desencantei... Como na música do Cazuza, hoje acho muito mais importante a "sorte de um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida..." do que encarar os desafios de uma paixão sem limites. Tudo que esperei até hoje foi em vão... Aquelas histórias de filmes, de amores impossíveis, que requerem doação, dor, sofrimento jamais puderam existir. Nem lá fora e nem aqui dentro. Ter com quem dividir certos momentos é muito mais importante do que o frio na barriga, a vertigem e o medo do desconhecido.
Também aprendi a valorizar o momento. Sem expectativas, sem planos. Envelhecer junto? Ser amada e cuidada na saúde e na doença? Não. Definitivamente não. Histórias assim nem em filme mais. Não dá certo. Percebi que sou a responsável direta e única por minha própria felicidade. Fazer o que? Colocá-la nas costas de outra pessoa seria duro e cruel demais. Então vou criando meios alternativos de sobreviver em meio a tudo isto. O desencanto é parte do crescimento, apenas isso.
Alma Gêmea é marketing, coisa de quem precisa vender livros e histórias. Desculpem-me aqueles que acreditam. Desculpem-me as crianças e adolescentes que precisam destas e de outras ilusões, mas sinceramente, somos nós que fazemos dar certo ou não cada história. Não existe destino, existem escolhas. E não é tão simples assim. Não é. Desencantar-se é um processo bastante dolorido. Doeu demais em mim. Mas fui-me dando conta de que, a cada fracasso, a dor parecia maior porque tinha guardado a esperança, tinha acreditado que aquele podia ser ele. Ele. Aquele que ia me salvar, lembram? Tive de deixar de lado essa crença idiota. Tive de abandoná-la para conseguir sobreviver. Para conseguir emergir depois de cada mergulho profundo em mim mesma. Não foi fácil. 
Mas, enfim, não fiquei amargurada e nem nada. Sou feliz. Tenho momentos tristes, como todo mundo, mas sou feliz de um modo geral. Mesmo não sendo salva. Ou melhor, mesmo tendo de salvar a mim mesma. Vou dividindo minha vida e meus momentos com aqueles que se importam, com aqueles que não sentem necessidade de me modificar, que me aceitam com minhas inúmeras imperfeições e imensos abismos. Esses dias alguém me disse: "Gosto quando você se aproxima, fica mais carente..." Eu não gosto. Preciso da distância regulamentar que me separa do resto. Necessito do abismo... Mesmo que fique fora dele. Mas vou abrindo concessões e de vez em quando me deixo ser cuidada... Mas só de vez em quando. Porque aprendi a ser forte. Mas, acima de tudo, porque aprendi a não esperar nada... de ninguém!

segunda-feira, 25 de março de 2013

Dias de luta, dias de glória...

Não pude deixar de refletir sobre algumas questões que permeiam as práticas escolares, estes últimos dias tem sido de inquietações, muitas delas, sempre rondando minha alma... Com a obrigatoriedade de escrever meu artigo de finalização de pós graduação, muitos assuntos tem me vindo à mente, recorrentes, constantes e, principalmente, necessários de serem discutidos... 
Sou professora de sala de recursos e intérprete de Libras, mais intérprete de Libras do que qualquer coisa, mas professora, educadora. Educadora desde muito antes de carregar meu diploma. Como tal, tenho questionado muitas coisas pertinentes à escola. 
Outrora já me referi ao trabalho das TILs em sala de aula, sobre como sua atuação deveria ser pedagógica dentro destes espaços, uma vez que não acredito na neutralidade. Então, na sexta-feira passada, com a demora do ônibus que pego para retornar para casa, encontrei um grupo de surdos e fiquei conversando com eles, a maioria já conhecido por conta da trajetória que tenho com a minha filha. Regozijo-me com estes momentos. Fui para casa pensando no quanto faz diferença ser parte da comunidade, ser reconhecida por eles como parte do grupo, como militante na luta, na causa surda. 
Acredito que este seja meu diferencial, isso que me faz ficar mais próxima, entender as reais necessidades... Já discorri outrora sobre o que acho certo, sobre o que considero palpável na prática diária em sala de aula, mas essa discussão urge, arde, necessita ser fomentada para que a inclusão venha a ter alguma dignidade. 
Sinto que ainda há muito a ser feito e, sim, sou parte disso, você aí que pensa que nem tem nada a ver com essa história também é parte disso, porque essa gurizada que está na escola hoje são os profissionais que encontraremos amanhã nas mais diversas áreas. Então somos todos responsáveis pela herança que deixaremos. 
Tenho muito orgulho de minha trajetória, de tudo o que me trouxe até aqui, ostento as coisas em que acredito e os meus pensamentos como um estandarte a ser erguido nos dias de lutas... As batalhas serão árduas. Sei disso. Mas a minha construção é sólida e meus filhos, meus alunos, as pessoas que convivem comigo sabem o quanto tento ser honesta comigo mesma. Andar dentro das minhas possibilidades... 
Mas considero que ser parceira de caminhada, fazer construções e desconstruções junto dos meus alunos é parte do mega projeto aprender/ensinar... Esse é o principal diferencial. Já dizia Freire que a gente aprende ao ensinar e precisamos estar sempre abertos e atentos para isso. Confio na potencialidade do meu aluno e acredito muito que podem ir além, sempre! Longe do conceito inicial de aluno (que significa "sem luz") porque hoje ele tem um papel social que está muito além disso. O meu papel segue sendo guiar... orientar... aprender e apreender com eles, cada vez mais! Reconhecendo que os dias de glória que se seguirão serão marcos na história, na história de nossas vidas, das instituições de ensino e, principalmente dos movimentos de governamento e governabilidade a que estamos sujeitos. Para que no futuro a inclusão seja parte disso tudo, de forma digna e coerente, não apenas uma utopia, um passo dado no escuro.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Vida e morte


Queria escrever algumas linhas sobre o final do ano... Passamos, enfim, por mais um prenúncio de fim de mundo... ilesos... Mas será que estamos mesmo ilesos? O mundo não acabou - ainda - mas gostaria de dimensionar o quanto estamos ilesos, o quanto estamos a salvo de nós mesmos. 
Vivendo em um planeta em que as pessoas estão cada vez mais egocêntricas, etnocêntricas e arrogantes, pessoas desumanizadas que não conseguem ver além de seus gramados e de seus umbigos... Enquanto a escola se esquiva de fazer seu papel humanizatório, vamos nos perdendo em meio a tanta atrocidade e mediocridade. Estamos vivos? Estamos protagonizando nossas vidas, nossas histórias? O que temos feito para que não passemos por aqui em vão?
Difícil falar sobre estas questões, mas, enquanto a programação da tv nos aliena, enquanto ficam na internet bisbilhotando as vidas alheias e se importando com o que é visto, o que acontece lá fora é a vida... sim, a vida... Independente de você participar dela ou não, ela está lá. Vibrando, colorindo, extravasando, sorrindo... com ou sem você!
E, um dia, como neste último domingo, você se dá conta de que a vida é tão efêmera e frágil... escorre por entre os dedos da gente, feito a areia de uma ampulheta. Você percebe o quanto é importante dizer o que sente, ser sincero - consigo mesmo - e cultivar os amores... Porque pode ser a última vez que você vê aquela pessoa... Pode ser a sua última chance de dizer que a ama, ou que ela o magoou. 
A Morte espreita a todos nós... Com este incidente em Santa Maria, em que morreram mais de 200 jovens, fiquei me perguntando, para quem eu mandaria a primeira mensagem, na eminência de minha morte? De quem eu gostaria de me despedir, de tranquilizar com a minha ida? Fiquei pensando, em meio a minha confusão e tristeza, que talvez - talvez - eu tenha tentado ir embora tantas vezes pelos meus próprios meios por causa da despedida. Para que eu pudesse me despedir de quem amo, dizer adeus, dizer que estaria melhor lá do que aqui... Não queria ser surpreendida por ela. Não queria que ela me levasse em um momento feliz, como fora profetizado outrora... Queria ir com a certeza de que deixei quem eu amo com as palavras certas...
Mas não controlamos isso. Não podemos conversar com a Morte e dizer: "Volte depois, ok? Tenho muito por fazer ainda!" Quantos aquele dia nem puderam despedir-se, talvez porque pensaram que sobreviveriam, talvez pelo simples fato cotidiano de não terem crédito em seus celulares... E, nesses momentos, em que nos sentimos tão pequenos frente ao acaso, é que aprendemos a dar mais valor às pequenas coisas, aos detalhes... Comecei a sorrir à toa lembrando do abraço tão natural do meu filho, vendo minha filha dormir, o amor de meus gatos por mim. Viver não é fácil... concordo... o mundo anda muito complicado, como cantou Renato (Russo) uma vez... Mas morrer também pode não ser um alívio... Principalmente quando deixamos alguém que sentirá por nós... Que saibamos valorizar cada momento, cada minuto junto de quem amamos, que saibamos valorizar a vida, pura e simplesmente, com seus altos e baixos e desafios constantes... Abrace, sorria, beije, quebre regras e seja feliz hoje, agora, porque o presente é a única coisa concreta que temos!




Quero deixar registrado o meu respeito e sentimentos relacionados ao ocorrido... muita coisa já fora escrita a este respeito e esta é apenas mais uma... Mas o último domingo fora o mais estranho de todos... sem nenhuma paz... 


Apenas mais uma de amor



A gente quase completou um ano de namoro, quase. Faltou um mês ou um pouquinho mais, não lembro. Mas hoje, sem mais nem menos, completamos um ano de separação. Ano passado essa hora, exatamente a essa hora, eu lembro bem. Eu estava no show do U2 que você não quis ir comigo e me ocupava em perguntar, de dez em dez segundos, e de dez em dez pessoas, quando é que você iria me ligar e dizer que tinha pensado melhor. Quando? Você nunca ligou, nunquinha. E eu esperei, esperei, esperei tanto tempo, nossa, como eu esperei. Acho que eu nunca esperei tanto nada em toda a minha vida. Outro dia a Myla me perguntou o que você tinha me ensinado. A gente estava conversando sobre os legados que as pessoas deixam em nossas vidas e ela quis saber qual tinha sido o seu. O coiso me ensinou a gostar de MPB e cinema europeu, o outro coiso me ensinou a gostar de sexo e restaurante caro. Teve o coisinho que me ensinou a ser engraçada e jogar frescobol. E você? Que raios me ensinou? Fiquei sem saber na hora, fiquei sem saber o que responder para a Myla. Mas hoje, no nosso aniversário de um ano separados, posso dizer que foi você quem me ensinou a lição mais importante da minha vida: você me ensinou a sofrer. Eu nunca, nunca, em vinte e sete anos de vida, tinha sofrido. Nunca. Claro, eu odiava ver meus pais quebrando o pau quando era criança, mas eu lembro que eu, pequenininha, pensava: um dia um príncipe vai me levar para longe dessa casa com gente louca que fuma demais, berra demais, desmaia e chuta vasos. Eu sofri também na escola, quando para alguém me enxergar eu tinha de promover bizarrices. Mas eu era muito nova para me separar das bizarrices e acabava também chamando a minha atenção: será que eu sou bizarra? Depois, em casa, quando eu dobrava direitinho o uniforme para o dia seguinte e me sentia um papel de parede bege que ninguém entende pra que serve, eu pensava: um dia um príncipe vai me levar pra longe dessa falta de vida, dessa falta de beleza, dessa falta de compreensão, dessa falta de cor, dessa falta de sei lá o que porque eu era novinha demais pra saber o que faltava. Esperar o raio do príncipe sempre disfarçou minha dor, sempre me refugiou dela. Mas quando você, no dia 20 de fevereiro de 2006, me mandou seguir meu caminho sozinha, fiquei sem saber como fugir da dor. Você era meu príncipe. Depois de tantos amores estranhos, pequenos, errados e tortos, finalmente eu tinha reconhecido no seu olhar centralizado e no seu sorriso espalhado, o meu príncipe. E o meu príncipe estava me dando o fora. Que porra eu ia esperar da vida agora? Quem iria me levar para longe se você não me queria mais por perto? Não teve como. Foi a primeira vez na vida que não consegui me enrolar e acabei deixando a dor vencer. Pela primeira vez a realidade falou mais alto que a fantasia. Pela primeira vez a realidade da sua ausência falou mais alto que a fantasia de anos a sua espera. Sofri pra caralho, como diz por aí quem sofre pra caralho. Mais do que livros cabeças, músicas bacanas, frases inteligentes, lugares descolados ou posições sexuais, você me ensinou o que realmente importa aprender nessa vida: que a vida pode ser uma grande, imensa e gigantesca merda. É, ela pode ser. E que não existe porra de príncipe porra nenhuma. Que nem ninguém e nem nada pode te levar para longe de nada. É isso e pronto. E é assim pra todo mundo. E pronto. Qual o drama? A dor infinita dos dias infinitos que vieram depois do dia em que você se foi pra sempre veio misturada com toda a dor que eu não senti em todos esses anos.A dor infinita dos dias infinitos que vieram depois do dia em que você se foi pra sempre veio misturada com toda a dor que eu não senti em todos esses anos. A dor do seu pé na bunda trouxe vasos jogados, bitucas eternas de cigarros em longas discussões pesadas, tardes perdidas em odiar o mundo, cabeças viradas, corredores frios, papéis de parede beges e grupinhos festivos e fechados. A nossa dor acabou sendo toda a dor que fazia fila em mim para ser sentida. E já que a porta pra realidade estava aberta, por que não sofrer também pelas criancinhas carentes, os países em guerra, a estupidez humana e a dor das juntas da minha mãe? Por que não sofrer pela condição das favelas, das prisões e da Terra? Por que não temer o aquecimento global, o ácido dos limpadores de vidro na Henrique Schaumann e as frases do Clodovil? A dor da sua partida trouxe toda a dor do mundo. De uma só vez. Mas agora já passa da meia noite. Não é mais nosso aniversário de fim e, pra te falar a verdade, eu já não sofro mais o nosso fim faz tempo. E pra te falar ainda mais a verdade, eu acho mesmo que você foi o príncipe que eu esperei a vida inteira. Você chegou e me levou embora. Levou embora a menina que tinha medo de sentir a vida e esperava uma salvação para tudo. Quem sobrou é essa desconhecida que se conhece muito bem em suas bizarrices, lê jornais todos os dias, substituiu o bege pela cor do verão, tem uns pais gente boa ainda que malucos, adora os poucos e estranhos amigos, não espera mais pelo cavalo branco mas fica ansiosa pelo início da novela e talvez esteja pronta para amar de verdade. Amar um homem e não um príncipe.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Ciclos que se findam



Hoje estou num misto de euforia e tristeza... Virando algumas páginas da minha vida em definitivo... A formatura da minha filha com certeza é um marco de uma delas. Há alguns dias que tenho lembrado, com certa nostalgia, de toda caminhada até aqui... Já falei outrora do quanto batalhei para mantê-la no lugar que considerava o certo para ela. Não me arrependo nem um pouco disto.
Imaginem que uma criança poderia viver isolada, poderia viver sem ter uma linguagem, sem ter comunicação com as pessoas mais próximas a ela... Imaginem esta mesma criança se relacionando num futuro, não muito distante, porque o tempo passa muito rápido. 
Quando a Júlia tinha dois anos fiz meu primeiro curso de Libras. Quando ela completou três anos e meio, procurei a primeira escola, mas essa mesma escola não oferecia o ensino que eu acreditava ser o ideal, por isso ela não continuou lá... Foi então que, quando ela tinha quatro anos e meio, aceitamos o desafio de irmos para longe de casa, enfrentamos o desconhecido porque eu acreditava que a educação especial era o lugar dela... e, infelizmente, não temos escolas especiais em qualquer esquina.
A partir daí, essa história começou a modificar-se... A criança que poderia ter passado anos de sua vida sem linguagem e sem comunicação, passou a ter uma, passou a informar e ser informada das coisas mínimas do dia a dia e isso fez toda a diferença na vida dela. Percebi, então, no quanto eram importantes as pequenas coisas e que ela, assim como o Luan, seu irmão, também seria criada para o mundo... E não poderia ser diferente!
Poderia discorrer aqui as chuvas, os temporais que pegamos em nossos caminhos, mas prefiro discorrer sobre as flores, os frutos que colhemos... Conheci inúmeras pessoas, que concordaram comigo ou que me fizeram repensar e/ou ter certeza de algumas coisas... Algumas pessoas que fazem parte da minha vida até hoje, outras que me ensinaram coisas importantes e foram embora... 
Mais do que nunca, tenho certeza plena e absoluta de que fiz o que era certo. Foi a educação especial que colocou a minha filha no mundo depois de mim.
E, para aquelas pessoas que acreditam que a inclusão é melhor porque os surdos precisam se adequar ao mundo ouvinte, tenho uma pequena mensagem para vocês: "Não, não se preocupem, não mandarei vocês à merda, como vocês bem mereceriam, mas o que eu tenho a dizer é que a inclusão minoriza o surdo, faz com que ele se sinta inadequado, deslocado, imperfeito... Minha filha se aceita como é, linda e perfeita, se vê completa porque teve professores que mostraram isso a ela no dia a dia, porque pode conviver plenamente com seus pares e isso é maravilhoso! Fui eu quem me adequei a ela e não ela a mim, como tudo deveria ser... E mais: eu tento fazer com que meus alunos surdos se sintam assim como ela, completos! Pena que vocês não consigam ver a grandeza que há neste outro mundo, nem pior nem melhor do que o nosso, apenas DIFERENTE!"
Findando este ciclo de minha vida, de nossas vidas, me sinto orgulhosa e envaidecida do que me tornei. Poderia dizer a todas as famílias, como de fato faço quando tenho a oportunidade, que a Libras foi o melhor caminho, embora não tenha sido o mais fácil. O medo do desconhecido muitas vezes tentou me paralisar, muitas vezes me fez pensar em abandonar tudo. Mas encontrei forças nos meus filhos, como sempre o faço, e criei uma pequena comunidade bilíngue dentro da minha própria casa.
E agora vamos embora para as outras lutas que se seguirão a partir de agora, ensino médio, faculdade, especializações... E estarei aqui, batalhando para que seja de qualidade e, principalmente, para que respeitem as particularidades dela, em qualquer lugar, porque ela é capaz e muito, mas muito especial! Como cada um de nós!