quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Carta aberta para meu pai...


Pai...

Estou há muitos dias pensando no que escrever de ti, para ti... Como é difícil descrever certas relações, como é difícil tentar escrever sem abrir velhas cicatrizes, sem fazer sangrar antigas feridas...
Não tenho intenção de enfeitar ou tentar pintar de cor de rosa uma relação que foi, sim, conflituosa, mas que, justamente por isso, nos fez crescer tanto enquanto pessoas.
Lembro do nosso começo... que, obviamente, para mim não foi no momento em que abri os olhos para esse mundo, foi um pouco depois. Lembro do quanto te esperava sentada naquela janela, do quanto ansiei a tua vinda, do quanto fui triste com a tua falta, a tua ausência, e feliz com a tua chegada. Muitas e muitas vezes a espera foi em vão e, não importava quanto tempo eu esperasse por ti, bastava tu aparecer para que eu esquecesse as minhas lágrimas, a espera, a demora, a mágoa... Bastava tu aparecer para o meu coração se encher de uma alegria única.
Tu sempre foi a festa, a casa cheia, a risada gostosa. Deve ser justamente por isso que sempre tive tanto medo de te decepcionar. Pois é, começo a falar de mim, porque não tem como falar de ti sem falar de mim. 
A verdade, pai, é que passei boa parte da minha vida tentando fazer tudo certo, tentando desesperadamente conseguir tua aprovação no que quer que fosse. Mas as notas altas na escola sempre poderiam ser maiores - hoje entendo que esse era teu discurso incentivador naquela época, mas naquele tempo eu não entendia... - os presentes de dia dos pais feitos com tanto entusiasmo na escola às vezes levavam dias para serem entregues e eu... eu esmorecia... Veja bem, não estou te culpando, de maneira alguma, a questão sempre foi a expectativa... Ela sempre fode com tudo... E, no nosso caso, ambos tivemos. 
Sou tua primogênita, sei hoje, mãe de dois filhos, o quanto a gente erra (tentando desesperadamente acertar) com relação ao primeiro filho. Aliás, erramos sempre! Porque simplesmente não existe receita para ser pai, mãe, para lidar com outros seres humanos. Erramos porque cada um de nós é único e carregamos universos inteiros dentro da gente...
Sempre soube que tu queria um futuro legal pra gente, sempre soube que tu não queria que a gente passasse pelo que tu passou na tua vida, eu via o quanto tu te emocionava quando falava da tua infância difícil e eram nesses momentos em que eu me orgulhava tanto de ti. Eu sempre pensava: "Bah, ele conseguiu! Eu também vou conseguir!"
Depois disso, vieram as decepções, muitas, inúmeras delas! Lembro de ter te feito chorar quando disse uma vez que tinha vergonha de onde eu morava, para ti, que teve uma infância tão difícil, que chegou a morar na rua, aquilo soava absurdo. Depois, perdi a virgindade, engravidei, abortei, engravidei de novo, casei cedo... indicativos de um futuro de bosta, né? Fiquei casada dez anos com um cara que me agredia, tu descobriu da pior forma possível, num momento de crise. E, embora eu esperasse muito que alguém me tirasse daquela vida, desejasse muito que alguém desse o troco naquele sujeito, no fundo, no fundo, eu sabia que a escolha tinha sido minha e que somente eu poderia mudar aquela realidade...
Tu também me decepcionou. Foi aí que eu fui percebendo que tu não era aquele super herói que eu imaginava. Foi necessário, pai! Sofri demais para desconstruir as coisas que eu esperava de ti! Demorou tanto para eu perceber que tu era um ser humano e, como tal, também errava.
Demorou para que eu pudesse te reconstruir de uma maneira diferente dentro de mim. E, no começo, confesso que tu não me ajudou muito. Mas era tudo muito novo pra ti também, hoje eu entendo. Não é fácil para um cara com uma alma tão jovem que nem tu ser chamado de avô! (Risos!)
Mas, de "parente", tu te tornou um grande avô. Através dos meus filhos, tu foi te moldando para ser hoje esse grande avô pro Pedro. Que bom! A vida é assim, pai, as pessoas estão em nossas vidas com um propósito, quando cumprem seus propósitos, vão embora. 
Mas o amor, o amor é coisa engraçada... crescemos com a ideia - errada - de que o amor nunca muda ou nunca morre. Hoje eu entendo o amor de um outro jeito... às vezes sentimos raiva e até odiamos aqueles que amamos, nem que seja por alguns minutos... não é errado e não devemos nos culpar quando isso acontece. Às vezes precisamos nos distanciar daqueles que amamos, justamente porque precisamos de um tempo para reconstruir a pessoa dentro de nós, mas não significa que o amor tenha terminado.
Hoje vejo que o amor, ele muda, nos muda e não é e jamais será algo estático em nossas vidas. Eu aprendi a te amar e amar de novo muitas e muitas vezes na minha vida. E acho que ainda terão muitas outras... Nos constituímos amigos e parceiros, além de pai e filha, ao longo do tempo... Tu estava lá quando eu tive a crise de apêndice, tu estava lá quando eu levei uma das surras sérias do Guto, tu estava lá pra levar a Ju no médico quando o carro passou em cima do pé dela na escola. Tu esteve em tantos momentos, bons e ruins.
E eu, eu também estive lá, pai! Estive lá quando os términos dos teus relacionamentos foram doídos demais para tu suportá-los sozinho, quando tu precisou de um lugar pra ir, de pequenas coisas que um dia faltaram nos tempos de vacas magras... Temos esse raro privilégio de termos uma relação de amizade, que foi construída com sangue e lágrimas, mas que, a meu ver, se fortaleceu com o passar do tempo. Sei que posso contar contigo e tu sabe que pode contar comigo. E quem, Afinal de contas, pode dizer isso nos dias de hoje?
Tu és um ser humano muito lindo, talvez tu mesmo não tenha descoberto isso ainda, mas teu coração não cabe no teu peito, tu és generoso, sempre se doa para as pessoas que tu gostas. Mas o que eu realmente admiro em ti é a tua eterna juventude. Como diz aquela célebre frase, cujo autor não me recordo agora: "O corpo envelhece sem que a gente queira, mas a alma só envelhece se a gente permitir." Isso é um dom de poucos! Manter-se jovem! Eu admiro e respeito demais essa tua alma tão viva, tão leve... Ainda me sinto tão bem ao teu lado, tu ainda é a festa inteira, o cara alegre, o cara pra cima, que coloca todo mundo pra cima também, mas hoje já não me sinto presa em tentar te agradar, de forma alguma... "A nossa liberdade é o que nos prende!" Te amo muito, nunca duvide deste amor, nem mesmo quando estivermos afastados fisicamente! Porque amor latente também é amor!

A deusa que habita em mim saúda o deus que habita em ti!

Da tua filha, amiga e parceira de jornada, Carina. 




quarta-feira, 29 de março de 2017

Leão com Leão (Sobre a experiência de ter uma filha surda)

Hoje venho fazer uma reflexão... sobre as minhas vivências em relação à deficiência de minha filha... Sei que já escrevi algumas vezes sobre isso, todos sabem, e não é segredo para ninguém, que, depois do choque inicial da descoberta da surdez, eu parti para a luta... Escolhi caminhos difíceis e muitas lutas foram travadas desde então, luta pela educação especial, que sempre acreditei tanto, luta pelo uso e reconhecimento da língua de sinais, luta pela aceitação, pelo fim do discurso: "ahhh, que pena, mas ela é tão linda..."
A princípio, para deixar claro, não me arrependo de nada que sacrifiquei por ela, nada mesmo, inclusive faria tudo de novo. Até porque acredito que ser mãe é isso mesmo, abdicar dos nossos sonhos em prol dos sonhos dos outros, que são extensão do nosso ser...
Mas os questionamentos da Júlia acerca da deficiência dela sempre foram muito foda. Mesmo com toda a aceitação que ela teve, mesmo com a minha fluência na língua materna dela, às vezes me parece que nada é o suficiente. Vou tentar fazer um breve resumo dos desafios que a Júlia tem me imposto, desde que era muito pequena...
Júlia entrou na escola aos 3 anos e meio, graças aos deuses e a uma força sobrenatural que eu sequer sabia que tinha. Foi estimulada precocemente e alfabetizou-se na hora certa. Enfim, cognitivamente, sempre foi muito boa, eu diria que acima da média até... mas, passada a fase de perguntar as cores de todas as coisas (que acho que nós, ouvintes, vivenciamos com a fase dos por quês), um dia ela chega da escola, muito pequena ainda, com quase seis anos, e me pergunta algo que, em um primeiro momento, me paralisou. "Mãe, o que adianta eu orar em Libras, se Deus é ouvinte?" O chão saiu dos meus pés. Eis mais um estigma trazido pela igreja católica e que eu deveria quebrar com apenas uma resposta. A resposta me veio num sopro divino e acredito muito que tenha sido convincente: "Ué, mas nos EUA não falam inglês, aqui no Brasil, português, na Alemanha, alemão, e assim em cada país uma língua? Tu achas que Deus não entende todas? Então ele sabe língua de sinais também." Os olhinhos dela brilharam. Sim, ela se convenceu. Missão cumprida e aquele frio na barriga que me acompanhou por dias ainda... 
Depois, lá pelos dez anos, ela queria saber por que somente ela era surda na família. Na época, tentei respostas de todos os tipos: "A família do teu pai é muito antiga, os pais dele tem a idade dos meus avós, não conhecemos toda a família, pode ser que tenha havido algum surdo que não tenhamos conhecido.", "Tu vieste assim para que nós pudéssemos aprender contigo.", ou ainda, "Tem coisas que não se explicam, são assim, porque são." Nada convenceu. Nada. Tanto o é que até hoje ela ainda pergunta, vez ou outra, quando sofre alguma decepção (como se ser ouvinte a pouparia das decepções... não pouparia!). 
Um dos meus maiores choques foi quando, aos doze, ela me pediu para fazer o implante coclear. Nada podia ser mais doloroso para mim que, já inserida na cultura surda, não podia imaginar que ela tivesse esse desejo. Já tendo me aprofundado nos estudos culturais surdos, sabia que as chances dela eram pequenas, devido a idade avançada, de voltar a ouvir de fato. Então, começamos, as duas, uma pesquisa acerca do implante, o procedimento cirúrgico, tempo de recuperação, a porcentagem de recuperação real da audição. Ela desistiu. Eu fiquei aliviada. Mas então veio um outro processo depois deste, tão cruel quanto. Começou a me questionar do por que eu não ter tentado o implante quando descobri a surdez. As chances eram maiores. Sempre respondi a esse questionamento dela dizendo que a aceitei do jeito que era. Sempre aceitei a língua de sinais. Sempre aceitei a surdez como experiência cultural e não como limitadora. Mas, me parece, ela não. E isso antes me chocava, agora me entristece profundamente. 
Ontem, estava conversando com ela no messenger, pois, trabalhando 60 horas, muitas vezes é assim que me comunico com eles, acerca de possibilidades futuras. Júlia passou em dois vestibulares, mas não conseguimos bolsa de estudos e nem financiamento, ela desistiu, mais uma vez, do Jovem Aprendiz, enfim, disse para ela que ela precisa estudar para passar no ENEM e tentar uma bolsa no futuro. Coisas reais, já que ela fantasia muito ainda sobre as coisas da vida. Disse que empregos ditos "normais" não são fáceis e que, mesmo não convivendo com outros surdos, ela não se veria livre de situações provocadas por fofocas e mal entendidos. A resposta dela veio como um raio. Partiu-me ao meio. "Meus ouvidos estão mortos! Eu não ouço as pessoas falarem de mim." Meus ouvidos estão mortos... Isso foi pior do que qualquer outra coisa que ela já tenha me questionado. 
Não sei mensurar como me sinto diante dessas reflexões dela. A solidão que ela sente desde pequena e que eu nunca aprendi a sanar. Hoje entendo que esses sentimentos são externos, são coisas que ela talvez não sentisse se o mundo não fosse tão filho da puta. Se as pessoas não fossem filhas da puta. Fala-se muito em acessibilidade, mas a verdade é que o mundo continua excluindo, julgando, rotulando as pessoas diferentes. Eu aprendi a lidar com isso, ela não. 
Se houvessem mais pessoas dentro da família, dentro das instituições, mais pessoas no mundo que usassem com normalidade a língua de sinais, talvez ela não se sentisse tão sozinha. Se houvessem mais processos de conscientização e humanização dentro da comunidade surda, talvez ela tivesse mais amigos. Se houvesse mais investimento em educação, em treinamento de pessoas que atuam na área da surdez, talvez ela se sentisse mais segura para fazer o ENEM, mais segura e mais capaz. 
A verdade é que existe toda uma legislação, todo um aparato para garantir o uso e manutenção da língua de sinais, mas, na prática, a coisa não acontece. O currículo da escola especial é uma merda. A inclusão não funciona. E eles ficam ali, às margens de uma sociedade hipócrita que acha que abriu uma concessão porque aprendeu a falar "oi" em sinais. Perdi as contas de quantas e quantas vezes me perguntaram: "Mas ela não fala?" Fala! Fala em sinais. E como fala, mãos, braços, cotovelos. Expressões faciais e corporais que jamais disfarça. Uma beleza de língua. Sim, língua. Não linguagem e tampouco gestos. Mas a ignorância dessa população que tem mestrado, doutorado, mas não aprende que não é surdo-mudo, é só surdo. Não aprende que não é linguagem, é língua. Não aprende que ainda estamos longe da igualdade de oportunidades. Muito longe! Essa ignorância não tem limites!
E, enquanto isso, eu e ela vamos nos (des)construindo em nossos conflitos, eu sigo lutando em prol dessa bandeira tão difícil que é a inclusão e ela, ela pensa que os ouvidos dela estão mortos, mas não estão. Eu ainda não encontrei argumentos para provar a ela que não estão, mas vou encontrar. Só queria que ela acreditasse mais em si mesma. Que ela se visse com os meus olhos por um instante apenas. Daí ela conseguiria ver a força que tem e que não é à toa, ter nascido de Leão com ascendente em Leão! Não é à toa! 

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Sobre os caminhos da educação especial (despedida de uma pessoa querida)

Sim, a educação especial é uma escolha... Escolha que, por vezes, é doída... Outras, é gratificante...Uma escolha de poucos, poucos os que a fazem por amor. Poucos os que não perguntam sobre as vantagens de remuneração e de aposentadoria... Costumo dizer que os educadores especiais que escolheram este caminho por acreditarem que podem fazer a diferença são grandes guerreiros. Veem luz onde outros apenas enxergam trevas. Conseguem ver possibilidades onde outros apenas enxergam obstáculos.
O educador especial, este extraterrestre dentro das escolas, o da sala do cantão, o encrenqueiro, o que desacomoda os outros colegas, aquele que lembra, todo santo dia, que as coisas ainda não estão acontecendo como deveriam, que ainda há muito a ser feito. Aquele que desafia, que se desafia e que não se conforma diante das injustiças... O educador especial é aquele que se regozija com as pequenas coisas, que as valoriza como pequenos tesouros, que guarda na lembrança os nomes de cada um de seus alunos... E, por falar em alunos...
A cada nova conquista de seus alunos, a cada descoberta, mínima que seja, renova-se e alegra-se. Acalenta a sua alma ver o outro desenvolver-se, saber que houve o seu investimento ali, o seu amor, o seu tempo... Somos muito mais do que os olhos do outro podem ver. Há uma imensidão, um infinito, um oceano de ideais que não deixamos para trás nunca. Que nos acompanham em nossas práticas e por toda vida. Afinal, a educação especial é uma escolha. Que nos motiva no dia a dia e que nos faz combater o bom combate. E, segundo Paulo Coelho, o Bom Combate é aquele que é travado em nome de nossos sonhos. E nós, educadores especiais, jamais deixamos de sonhar. Fazemos o que acreditamos e sonhamos... Com um mundo melhor, um futuro melhor e um legado... o legado do amor, do respeito às diferenças, sejam elas quais forem, o legado da justiça...
São esses sonhos que nos fazem caminhar, que nos fazem enfrentar tantos obstáculos diários e, ainda assim, sorrir ao final do dia, com aquela sensação de dever cumprido. Porque olhamos os nossos alunos, não com pena, mas com vislumbre de possibilidades... Porque não cruzamos os braços frente às batalhas... Porque sonhamos...
Então, quando um de nós se afasta, pelas circunstâncias naturais de nossas vidas, sabe-se que ali ficou um legado de bondade e de decência. É uma estrela a brilhar junto de nós, que jamais se apagará. E, com certeza, uma herança que permanecerá eternamente nos corações de cada aluno, cada família, cada colega com quem se conviveu ao longo do tempo.
Resta-nos desejar que a vida, o universo, retornem a ti tudo o que deixaste de amor e de esperança de dias melhores e que possamos, a partir de teus passos, seguir em frente de cabeça erguida, com a certeza de que estaremos sempre direcionadas ao caminho do bem e do melhor aos nossos alunos. Juntos estaremos em nossos legados e em nossos corações! Sejas feliz!

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Sobre as bruxas... por Gi Stadnicki.

BRUXAS?
No meu mundo há bruxas sim!
E elas sobrevivem muito abaixo dessa crosta de aparências bizarras, tão frágil quanto esmagadora...
Sobrevivem onde sopram os ventos divinos...espiralando e circulando...e em meio à eles, elas dançam!
E é nas profundezas de tudo que há onde ainda conseguem respirar.
No meu mundo as bruxas vão bem além das vassouras, dos chapéus pontudos e do ar cinematográfico...
Humana bruxa!
E curiosas, se misturarem às massas, pulando fora das lendas, conectando-se às gentes, impregnando-se dos cheiros e gostos, sorvendo pensamentos e sentimentos, somando-se às misturas e culturas...à vida, sem subterfúgios...
Sem medos!
Pois o velho caldeirão fumega dentro dela, esse sim, persiste! Dele fazem questão! E é a essência delas.
É o que as faz o que são...

No meu mundo as bruxas rezam!
Rezam baixinho, rezam alto, rezam de joelhos, de cócoras, rezam dia e noite...
Rezam rindo, rezam chorando, rezam vivendo e rezam morrendo...
Enquanto cuidam de suas coisas, e das de todo mundo, porque essa é sua sina...
Sagrada bruxa!
No meu mundo, bruxa é a mulher que ensina.
Independente se é velha, moça ou menina...
Depende só se traz consigo aquela inquietação.
Aquela agonia que dentro da gente faz eterno turbilhão...
Um desassossego, sem precedentes.
Parece que tem um bicho...
Uivando dentro da gente...
Sem aceitar, sem entender, sem permitir...
Sem aguentar, que o grito de quem quer que seja, ecoe por aí indiferente.
No meu mundo, bruxa é mulher perseguida...
Sou eu, você e ela. Aquela, a outra, e a de saia amarela...
Somos nós, as oprimidas, as desvalidas, as violentadas, as agredidas, as escondidas, as malvistas e as mal faladas...
E as curiosas. As indomáveis. As ávidas pelo oculto, pelo que transgride, as de língua afiada!
Despudoradas de alma...
Incapazes de se saciar com mentiras...
Impossíveis de calar diante do absurdo.
Maldita bruxa!
No meu mundo, é bruxa sim, toda e qualquer que em algum momento nessa vida, se entendeu parte do todo...
Se percebeu um fragmento de estrela, uma gota de chuva, um pio na escuridão...
É sim senhora, não fuja disso não!
Pois já desceu ao fundo do poço...
Não tem mais jeito...
Triste de ti mulher, que um dia se viu resumida a um soluço de compaixão...
Triste de ti, que se viu traduzida em emoção...
Triste de ti, que se pegou decifrada em paixão...
E virada e revirada em cólicas de empatia...
Trespassada pelo amor. Meio Deus, meio Deusa, Tudo...ou Nada.
Exaltada e decaída, ao mesmo tempo.
Anjo e demônio...
Não tem mais jeito bruxa...
E tô te elogiando mulher! Vem, vamos dividir a carga uma com a outra...
O meu mundo, é o mesmo teu.
E a esse mundo de insanidade e encanto...
Bem vinda, bruxa!
BLESSED BE!

(Gi Stadnicki.)

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

É preciso morrer algumas vezes antes de viver realmente

Antigamente corria contra o tempo, corria para chegar na hora nos lugares, ficava ansiosa, e quase nunca conseguia chegar, mesmo com toda correria... Horários nunca foram meu forte, mesmo. Mas sempre me afligiram muito.
Hoje me alinhei às minhas limitações, afinal de contas, o que não tem remédio, remediado está. Faço minhas orações quando dá, chego na hora se consigo sair cedo, sendo que sempre, sempre tomo meu café calmamente, não saio sem café de casa. Nunca! Disso não abro mão.
De tanto tentar nadar contra a maré, hoje alcancei um ponto de equilíbrio comigo mesma. Já não corro mais pela rua, já não fico enlouquecida quando não consigo pagar alguma conta. Dificilmente algo me abala a ponto de me fazer chorar ou perder a compostura.
Algumas pessoas chamam isso de frieza, egoísmo, eu chamo de maturidade. Já perdi tanta gente em meu caminho, algumas pessoas que voltaram com o passar do tempo, a conviver comigo, outras que talvez nunca voltarão, mas o fato é que a gente começa a ficar forte diante de certas dores...
Despeço-me e deixo ir. Outras pessoas sou eu mesma que dispenso. Quando temos energias tão distintas não adianta forçar o "ficar junto", porque devemos aceitar que temos níveis de evolução diferenciados. Às vezes a gente está mais evoluído, às vezes é o outro que deve esperar pela gente. A vida é assim mesmo. Idas e vindas, altos e baixos.
Simplesmente aprendi a não me debater. Não mais. Aceito o que vier, seja o que for. E acredito que esteja começando a viver de fato somente agora, depois de ter morrido tantas vezes. Crescer dói. Doeu muito e ainda vai doer. Tenho plena consciência disso. E espero ainda evoluir mais. 
Como disse Bukowski em sua célebre frase que tenho tatuada em minha costela direita, como algumas pessoas dizem que a vida começa aos 40, hoje, mais do que nunca, tenho certeza absoluta de que a minha está recém começando. Dispensando o que for preciso, me agarrando ao que considero precioso (e que amanhã já poderá não ser), vou vivendo. Andando com calma até o trem, para chegar uma hora atrasada... Enfim, assim vou eu... Criando asas quando perco o chão e voando além, enquanto tiver céu... Porque fui feita de plumas e não de raízes!

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Precisamos falar sobre Lúcia

A menina de 16 anos, Lúcia, da Argentina, morreu sozinha. A minha empatia, ao ler as muitas reportagens que surgiram desde o dia 8 deste mês, fez com que eu me colocasse no lugar dela inúmeras vezes. Ou, ainda pior, imaginei se fosse com minha filha, hoje com 18 anos.
Imaginei o desespero, os olhos a buscarem por algo ou alguém que pudesse estender a mão, mas ali só haviam seus algozes. Morreu de dor, segundo as perícias. Alguém consegue imaginar isso? Como deve ser desmaiar por não conseguir suportar a dor? Pois então... Fiz esse movimento muitas vezes ao longo desta semana. E não foi fácil. 
Fui abusada. Sim, fui, quando menina e depois, já adolescente, saindo de uma festa. No segundo episódio, optei por não denunciar porque meus amigos homens disseram que eu havia provocado o incidente por conta das minhas roupas. Tive medo. O primeiro episódio eu tinha cinco anos, nem sabia que aquilo era abuso. Quando dei por conta, quando percebi, já um pouco maiorzinha, o que se passava, contei para pessoas em quem eu confiava, meus tios. Foi muito sofrido, porque era uma pessoa da família. 
Depois, quando estava na escola, lá pelo segundo ano do fundamental, apanhei de um menino na aula de educação física. Esse soco no estômago acarretou uma semana ou mais de internação e hematúria nos rins que até hoje eu tenho que controlar com exames. 
Mais tarde, casada com o cara que eu amava, deparei-me com a violência doméstica em todas as suas versões - física, psicológica e econômica. Foram oito anos de violência, dez de casamento e doze de relacionamento. Um mar de lágrimas e um baita amadurecimento. Nem sei contabilizar quantas vezes fiz as malas pra ir embora. Quantas vezes parei na porta de madrugada para partir, mas me retive pelos meus filhos. Só com eles, eu pensava. 
Conto essas histórias porque tenho hoje 37 anos, quase 38, e a violência sofrida pela mulher não é de hoje. E é, sim, cultural, infelizmente. Quando li a história de Lúcia, tive uma sensação de dor, pois livrei-me da morte por muito pouco, e de alívio, pois minha filha jamais passou por uma situação destas. Mas, todos os dias, desde que amanhece, tenho plena consciência de que nem ela, nem eu e nem nenhuma mulher está, de fato livre de vivenciar este terror. 
Sendo mulher, tendo vivido o abuso, tendo convivido com abusadores, impossível não sentir temor pelo futuro, impossível não sentir calafrios com a mera possibilidade de acontecer essa brutalidade a alguém próxima. Simplesmente não sei o que faria. Não consigo sequer imaginar como ficou essa família, a dor sentida pelo sofrimento dela... Se fosse comigo, acho que ia preferir ir junto da minha filha... Não conseguiria viver sabendo do que ela passou...
Mas escrevo hoje porque muitas mulheres sofrem caladas, morrem, pouco a pouco, em seus lares, em silêncio. Clamam por socorro sem serem ouvidas. O que leva alguns homens a virarem monstros, não sei. Há toda uma influência histórica do patriarcado branco-europeu-cristão, que sempre subjugou as mulheres, talvez seja isso que ainda assombra os nossos dias. Mas, assim como na Argentina não se calaram, não podemos permitir que aqui no Brasil, país que é quinto lugar no ranking de violência contra a mulher e que sabemos que leis como a Maria da Penha são apenas paliativas, não protegem, de fato, as que estão em situação de risco, esse tipo de coisa caia dentro da normalidade. Mais uma vez digo, não é normal ser estuprada. Não é bonito ser coagida. E só quem sente na pele é que sabe o que isso significa. Sabe como é não poder andar livremente, não poder usar a roupa que bem entender. Clamamos pela mesma liberdade que os homens tem. Por igualdade de direitos. Só isso. Cada vez que morre uma de nós, fica ainda mais clara a função do feminismo no mundo. Ainda não somos iguais.
Lúcia era uma menina. Tinha sonhos, desejos, que foram brutalmente interrompidos pela barbárie do mundo em que vivemos. Empalada. Morta. Friamente limpa e jogada às portas de um hospital. Pensem nisso. Poderia ser uma de nós. Uma irmã, uma prima, uma amiga, até mesmo uma filha. Que a dor dela, a dor dessa família se traduza em sororidade. Nenhuma a menos. Assim que deve ser. Que a dor dela seja a nossa dor. Porque, se não fizermos algo logo, certamente o será, de fato.
Eduquem seus filhos para que não invadam espaços alheios, eduquem suas filhas para serem empoderadas, para se amarem, acima de tudo, independente da aparência. Deixem um mundo melhor para o futuro não tão distante. Ninguém merece ser estuprada, ninguém! E nenhuma vítima é culpada pelo abuso que sofreu. Mulheres, libertem-se! Denunciem! Saiam de relacionamentos no primeiro sinal de abuso. Estamos juntas e, juntas, somos mais fortes!



quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Sobre ser professora...


Eu nunca quis ser professora. Nunca mesmo. Lembro-me até hoje de quando, na pré escola, a professora, que eu achava uma bruxa, perguntou pra turma o que todos queriam ser quando crescer. Saíram coisas bem legais: astronauta, bailarina, etc. Prova de que as crianças ainda sonhavam, que bom... A minha resposta? Artista de circo! Sério! Eu ficava fascinada em ver aquelas pessoas sem raízes, que iam e vinham livres... E que tinham toda a atenção quando estavam no palco, no picadeiro... Era mágico! E, hoje eu sei, a magia sempre esteve em mim, talvez por isso a minha escolha...
Pois bem, cresci. E cresci mais nas casas dos meus avós do que na minha própria, sorte a minha, já que morava em apartamento sem pátio. Pátio tinha de sobra, pátio com lagartas, borboletas e tatus-bola. E gatos, muitos gatos. De todas as cores! E, dentro deste universo fantástico, depois de muitas caixinhas de insetos colecionadas e de ver muitos e muitos filhotes de gatos nascerem e crescerem, qualquer um que me perguntasse, durante toda a minha adolescência, o que eu queria ser, a resposta era certeira: veterinária. (Lógico que, depois, com a consciência dos valores dos cursos, até bióloga servia, desde que estivesse perto dos bichos.)
Pois bem, o resto da história todo mundo sabe, já mencionei mais de uma vez, terminei o ensino médio grávida, a Ju nasceu surda e, desde então, começou uma peregrinação para proporcionar a ela o que eu considerava o melhor. A oportunidade de voltar a estudar surgiu com as bolsas. Agarrei-me a isso por uma questão de sobrevivência - era o único caminho para me livrar de meu relacionamento violento e abusivo. Sendo assim, iniciei minha caminhada, como bolsista integral, em uma das melhores universidades aqui do RS. Não fosse a bolsa, não teria conseguido, jamais, estudar. E, sim, era um grande potencial desperdiçado. Mas a sensação de não enquadramento atravessou comigo todo o curso. Minhas tatuagens fizeram muitos professores me dizerem que eu "não tinha perfil de pedagoga". A convivência com  muitas colegas de curso fez eu ter certeza disso. 
Os estágios me fizeram questionar ainda mais a minha escolha, pois, de fato, eu não me sentia pronta. Nunca consegui "puxar o saco" de professores para conseguir um lugar dentro da universidade. Sim, mais desperdício de um grande potencial. Comecei a trabalhar no Estado antes de me formar. Mas era como intérprete, então, beleza, nem senti tanto. Ainda assim, presenciando as práticas equivocadas de colegas de profissão diariamente, comecei a questionar o tempo perdido em uma formação que realmente não era o que eu queria... Meus primeiros anos dentro da educação especial foram sofridos. Construí e desconstruí a mim mesma incontáveis vezes. Aceitei as coisas que não podia mudar com muito custo e sofrimento, as que eu podia - e posso - mudar, esperneio até hoje. 
E, pra falar a verdade, ainda estou me constituindo professora, ainda não me considero professora, falta muita coisa a aprender e tenho aprendido todos os dias com as minhas práticas e com meus alunos. Não me sinto ainda à vontade com o título. Ainda que tenha um pedaço de papel lá em casa que diga e prove que sou. Acho até engraçado ver aqueles perfis sociais com nomes tipo "Professora Fulana de tal" ou "Pedagoga Ciclana". Gente, não é o diploma que me concede isso, é o que eu faço no dia a dia, pelo menos é o que eu penso a esse respeito. E vejo tanta coisa nessa minha caminhada que, sinceramente, tem gente que deveria usar o seu diploma para limpar a bunda. Bem isso mesmo. Pessoas frustradas que transformam as vidas dos alunos em verdadeiros infernos. Triste.  
Mas cá estou eu. Professora. Pedagoga. Trabalhando já há quatro longos anos em sala de recursos, buscando o melhor atendimento aos meus queridos alunos que já possuem tantas barreiras na vida, já enfrentarão tantas e tantas coisas. Na verdade, muitas decepções ainda seguem comigo. Mesmo concursada, o que eu achava, na minha mais doce ilusão, que já seria uma grande coisa na minha caminhada, as políticas públicas tem nos despedaçado dia após dia. Salários parcelados, condições precárias para trabalhar, psicológico em frangalhos em virtude de não darmos mais conta de manter o básico. Todos os meses passamos pela incerteza de podermos pagar - ou não - todas as contas. Em geral, tem de se deixar algumas, de fato, porque não há meios de vencer os juros do banco. Os colegas e eu, logicamente, temos sofrido com este descaso. E, não fosse isso o bastante, ainda temos um ambiente insalubre, hostil, onde é quase impossível firmar parcerias e onde o aluno geralmente paga o pato de não termos a valorização social necessária. 
Tudo é um círculo vicioso. Não recebo em dia o salário, me contento em fazer o mínimo, em me manter dentro da média. Neste processo, recuso-me a fazer o necessário para promover uma aprendizagem digna, pois não participo de formações continuadas, não faço as adaptações curriculares essenciais à inclusão e, desta forma, meu aluno vai fingindo que aprende enquanto eu finjo que ensino. A roda é essa. E quem perde são os alunos. Sempre. Isso que nem entro no mérito da greve. Dos movimentos. Porque isso fragmenta ainda mais a classe, desune, provoca desrespeito entre colegas. E notem que não estou me posicionando contra, considero até necessário o movimento de greve. Mas cada um sabe onde aperta o seu sapato e temos a obrigação de respeitar a opinião dos colegas.
Lamento todos os dias o rumo que as coisas tomaram. Mas busco fazer a diferença nas vidas dos meus alunos, isso é o que me prende a essa profissão tão pouco valorizada, tanto pela sociedade quanto por nós mesmos - com as práticas equivocadas dentro das escolas. Meus alunos são a principal razão por eu continuar tentando, por eu insistir. Porque tem escola em que eu realmente não me sinto à vontade, tem escola que sequer frequento a sala dos professores - outrora chamada de serpentário em uma palestra em que eu estava, - tem escola em que eu nem converso com colegas, por não fazer questão mesmo, por saber que não me acrescentaria muito. Vez ou outra eu ainda me pego pensando em mudar de profissão. Sei lá. Às vezes é melhor mesmo lidar com bicho do que com gente. Acho que a maioria das vezes. Mas aí me lembro dos alunos. Sim, ficarei um pouco mais por eles, só por eles... Não é pelo salário, não é pelos "privilégios" que o senhor ministro acha que temos, não é pelos colegas... Quem sabe um dia, não tão distante, poderei olhar para outros horizontes, mas, por hora, eu fico...